domingo, 7 de setembro de 2008

Kill Bill, Albert Hall e Francisco de Assis


A única pessoa capaz de explicar alguma ligação entre Killl Bill e Francisco de Assis é um compositor chamado Olivier Messiaen. Foi um compositor francês que criou diversos tipos de harmonias que acabaram virando moda. Por exemplo, aquela musiquinha do Kill Bill tem raízes em Messiaen:
http://www.youtube.com/watch?v=54vtXRI32MQ

Acabei de voltar de uma ópera no Royal Albert Hall de Londres: "Saint Francis of Assisi", de Messiaen. Messiaen era um sujeito muito católico, e acredito que fez uma grande síntese da música do seu tempo (o grande Pierre Boulez, um dos maiores compositores da atualidade foi seu aluno). Talvez, se não for exagero, quase um Bach da nossa era: nas suas músicas você encontrará o mais sofisticado da música contemporânea, escreveu milhares de peças para órgão, e a maioria de suas composições tem um fundo religioso. Neste Saint Francis, a única ópera composta por Messiaen (um feito que Bach não conseguiu), temos um grande exemplo de como um compositor pode transformar sons da natureza em música de repertório. A ópera é grande demais e confesso que teve horas que me deu sono (são 6 horas no total: 3 atos e 8 cenas). Acho que Messiaen tenta empregar os leitmotifs Wagnerianos, mas de uma maneira bastante pessoal. E acho que a ópera é tão grande e pesada, que deixaria o Parsifall de Wagner como mero intermezzo para crianças. Duas cenas em particular me chamaram atenção: a cena em que São Francisco beija o leproso; nela vemos claramente que muitos compositores de trilhas de filmes utilizam-se de recursos "Messiaenicos"; o tema do imperador em Star Wars, p.ex., é claramente uma variante do tema do leproso. Outra cena (acredito que a penúltima ou antepenúltima) é aquela em que S Francisco faz o sermão para os pássaros: Messiaen usa uma profunda imaginação para transformar o som de clockspiels, xilofones, piccolos e órgãos eletrônicos numa sinfônia de pássaros da Úmbria. E tal sinfonia soa perfeita do ponto de vista técnico (ele utiliza vários recursos de percussão para incluir o som das asas dos pássaros) e do ponto de vista de encontrar ressonância na idéia de imitar a natureza via instrumentos musicais.

O Royal Albert Hall estava com apenas 50% da lotação, para uma peça extremamente bem tocada (pela Filarmônica de Haia) e uma obra extremamente sofisticada. No entando é tão sofisticada e complexa que talvez tenha afugentado os espectadores (além dos que não foram, durante os intervalos vi muita gente indo embora). (Uma observação é que esta ópera levou 8 anos para ser composta 1975-1983, encomendada para a ópera de Paris, e só tocada na sua estréia; depois foi pouquíssimo tocada; não sei, mas tenho até a impressão que é a primeira vez que toca na Inglaterra.) Minha conclusão é que para uma ópera como esta os itens totalmente necessários são: conhecer um pouco da obra de Messiaen, um pouco da vida do santo de Assis e ter o libretto em mãos. Do contrário, é melhor assistir a um pouco de Kill Bill e rir do humor sanguinário Tarantiano e esperar que a musiquinha tema possa ser uma boa pista para entender os caminhos de Olivier Messiaen.

Saint Francis of Assisi, Olivier Messiaen, ópera em 3 atos
Orquestra Filarmônica de Haia e The Netherlands Opera, condutor Ingo Metzmacher
Rod Gilfry (barítono) no papel de São Francisco

2 comentários:

  1. Valeu pela dica! Nem passava pela minha cabeça a existência deste compositor... Continue escrevendo!!

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  2. parece q vc sabe ser um ótimo crítico de música erudita.
    adorei o texto por várias razões!

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