quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Panis et circenses

Onde, há dois mil anos: Onde, hoje:


Astros, há dois mil anos:



Astros, hoje:





Quem organizava há dois mil anos:
Quem organiza hoje:


Há dois mil anos, assunto mais falado nas ruas (caso a cidade não estivesse em chamas ou os bárbaros invadindo):



Hoje, assunto mais falado nas ruas (caso criancinhas não sejam jogadas da sacada ou seqüestradas pelo namorado):
Forma de veiculação midiática há dois mil anos:



Forma de veiculação midiática hoje:

Quem assistia, há dois mil anos:


Quem assiste hoje:

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quando morei nas escadas...

Uma das decisões que dividiram minha vida num antes e depois... Não foi algo tão simples de fazer, mas realizei muitos sonhos...

Eu era engenheiro eletrônico. Também técnico do judiciário federal. Na época o salário não era lá estas coisas. Mas dava para ajudar a família e ir ao cinema nos finais de semana. Em geral uma situação cômoda, estável. Tentadora. Tinha porém aquele vento de mudança irrigando diáfano minha mente a todo instante.

Pedi licença do emprego público que tinha porque queria conhecer as estrelas e o universo. Licença sem vencimentos. Coisa de louco, muitos provavelmente pensaram. Pois é. Existem aqueles loucos que também gostam de pensar nas estrelas, além dos loucos normais que gostam de pensar em dinheiro.

Chutei o balde. Fui embora de Recife sem saber exatamente os passos que deveria dar, mas o fim era o que importava. Eu tinha um dinheiro guardado, que dava para sustentar por uns dois meses. Como compromisso pessoal decidi que continuaria ajudando meus pais. O grande problema em tudo isso é que o estado de São Paulo era um lugar com padrões muito mais caros que os nordestinos. Mesmo assim mergulhei de cabeça.

A minha grande burrada: eu tinha passado no teste de seleção para fazer um mestrado em astrofísica na Usp em São Paulo, mas ainda não havia garantia de bolsa. Ao mesmo tempo fui aceito como portador de diploma para cursar física na Usp de São Carlos. Como queria aprender física, decidi priorizar São Carlos e aluguei um apartamento que exigia fiador, contrato de um ano e um monte de outras exigências para completar. Mas acabei me envolvendo no mestrado e tranquei o curso de São Carlos. Como o dinheiro que tinha era para o aluguel em São Carlos e como ainda não havia perspectiva de bolsa no mestrado, fiquei numa situação difícil. Meu dinheiro estava completamente limitado. Minha família era pobre e não havia remédio a não ser ter paciência e esperar que a bolsa de mestrado saísse o quanto antes. Onde morar então em São Paulo?

No primeiro dia de capital paulista, fui apresentado ao Departamento de Astronomia da Usp. Meu orientador, o grande cientista Amâncio Friaça, dissera-me que em breve eu teria uma sala e ganharia uma bolsa. Resolvi, não sei se por orgulho ou insegurança, não contar para ele sobre este meu problema de moradia em São Paulo. Segunda grande burrada... Enfim, se em breve eu teria uma sala na Usp e uma bolsa, então meus problemas estariam resolvidos: eu moraria no meu escritório e me safaria. Mas enquanto não tinha escritório, onde morar? São Carlos fica meio longe da capital paulista e eu não podia gastar o meu precioso dinheiro em passagem de ônibus.

Terceira grande burrada, e esta, reconheço, por completo orgulho: eu tinha primos em São Paulo, e poderia pedir o favor de ficar por uns tempos na casa deles. Mas não. Tomei a decisão mais maluca que alguém poderia tomar.

Naquele dia, andando pelos trens de São Paulo, eu percebera que na estação Presidente Altino havia um conjunto de prédios onde as pessoas entravam e saiam em grandes grupos. Foi naquele momento que tive a tal idéia maluca. Como eu não estava nem um pouco interessado em dormir debaixo da ponte e não tinha dinheiro para dormir em um hotel, entrei no condomínio misturado à turba. Eram 5 prédios de nove andares. Ainda lembro o nome do condomínio: Parque dos Eucaliptos. Ali morava uma ex-namoradinha, mas por orgulho também não revelei minha situação. Entrei em um prédio cujo portão estava aberto. Subi as escadas até o nono andar. E lá pela meia-noite depositei algumas camisas no chão. Minha mochila foi meu travesseiro. Era inverno. Uns 8 graus centígrados. Passei frio. E medo. A cada ruído a obsessão de um zelador a subir e me expulsar. E ao primeiro raio de sol zarpei fugindo do condomínio, camuflando-me junto a um grupo que saía para tomar o trem.

Esta considerei a minha casa número um. A número dois era a rodoviária do Tietê. A número três, o aeroporto de Cumbica. A coisa mudou um mês depois quando ganhei minha sala na Usp. E minha sala se transformou na casa número um.

Eu evitava dormir todo dia na minha sala, pois havia uma regra proibindo alunos de "morarem" dentro dos departamentos científicos. E também havia um problema porque eu compartilhava a sala com dois alunos de doutorado. E às vezes eles viravam a noite trabalhando. E quando isto acontecia eu dormia ou nas escadas do condomínio dos eucaliptos ou na escada do telescópio do departamento. Uma loucura para me esconder dos guardas e do esquema de segurança da Usp.

Quando o contrato do apartamento em São Carlos acabou, coincidiu que eu tinha ganhado uma bolsa para estagiar no Instituto de Estudos Espaciais de Barcelona na Espanha. E a partir daquele momento deixei de morar nas escadas e no chão frio de minha sala.

Foi total tolice. O orgulho e a falta de experiência cegam e criam cenários tristes.

Mas amadureci. Como ninguém...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

2,2 trilhões para quem está de barriga cheia

Vou fazer um slideshow para você.

Está preparado? É comum, você já viu essas imagens antes.

Quem sabe até já se acostumou com elas.

Começa com aquelas crianças famintas da África.

Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.

Aquelas com moscas nos olhos.

Os slides se sucedem.

Êxodos de populações inteiras.

Gente faminta.

Gente pobre.

Gente sem futuro.

Durante décadas, vimos essas imagens.

No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.

Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.

São imagens de miséria que comovem.

São imagens que criam plataformas de governo.

Criam ONGs.

Criam entidades.

Criam movimentos sociais.

A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em

Bogotá sensibiliza.

Ano após ano, discutiu-se o que fazer.

Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se

sucederam nas nações mais poderosas do planeta.

Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o

problema da fome no mundo.

Resolver, capicce?

Extinguir.

Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em

nenhum canto do planeta.

Não sei como calcularam este número.

Mas digamos que esteja subestimado.

Digamos que seja o dobro.

Ou o triplo.

Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.

Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.

Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse.

Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia.

..::..

Texto de Neto, publicado no blog Updaters.

Título de Marcelo Tas, publicado no Blog do Tas

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Para aqueles que amam...

When I am laid, am laid in earth, May my wrongs create
No trouble, no trouble in thy breast;
Remember me, remember me, but ah! forget my fate.
Remember me, but ah! forget my fate.

(Dido's Lament, Henry Purcell & Nahum Tate, 1689)


Créditos: Xenia Meijer, Mezzo-Soprano; Erik Vos conduz Combattimento Consort Amsterdam.
Clique aqui para ver versão alternativa, cantada por Emma Kirkby (Peter Seymour, Yorkshire Baroque Soloists)


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Falarei agora e depois calar-me-ei para sempre

Existe um pequeno e pontual fenômeno cultural permeando a sociedade brasileira nesta última semana. Envolve aparentemente três pessoas cujos nomes são Eloá, Nayara e Lindemberg. Digo "aparentemente" porque acredito que as raízes são bem mais profundas. Decidi escrever este rápido tópido por um motivo: todo mundo só fala nisso e as pessoas não percebem que o assunto, apesar de importante, está sendo superdimensionado por uma imprensa que infelizmente está em busca de uma única coisa: lucro. Segunda-feira, 20/10/08: o Jornal da Record tem 98% da programação dedicada ao caso; o Jornal Nacional, 97%; o Jornal da Band, mais coerente, dedicou apenas 30%, o merecido. Amo a imprensa livre: mas o que dizer da imprensa não pluralista, que se aproveita desta liberdade para dar a impressão que a vida é baseada em um único foco, escondendo muitas belezas vindas da arte e dos saberes, em nome da audiência? Sei que jornalistas e executivos têm que ver o seu empreendimento crescer. E concordo que eles devam pensar desta maneira. Mas como não sou executivo de imprensa e nunca serei, acredito que o telespectador não merece ser bombardeado dessa maneira. Televisão, falo principalmente dela, é um veículo de fácil absorção, onde imagens descem como água pela goela psicológica abaixo, beirando o perigo de lavagem cerebral. E por isso notícias baratas acabam prendendo fácil fácil qualquer pessoa, por mais conscientizada que ela possa parecer. É como nicotina: fuma e verás o que acontecerá. Censura nunca, que é contra a liberdade. Mas como cidadãos livres também temos o direito de boicotar e nunca exercemos esta liberdade. Em consonância com tudo isso, vem o orkut, que se transformou no espelho da sociedade brasileira: comunidades de ódio a Lindemberg se alastram caoticamente, pedindo pena de morte, linchamento, desejando o pior para o rapaz. E esse ódio, quem gerou? Eu seria muito reducionista em dizer que foi apenas a mídia mercantilista e pirata. O sistema social é muito mais complexo. A formação de opinião vem a partir do compartilhamento de informações, de ouvir alguém com influência na comunidade ou no ambiente de trabalho. Mas não tenho dúvida que a opinião de um apresentador de programa policial é irremediavelmente pesada. A imprensa tem alimentado os vícios de uma sociedade doente. Quando tudo acaba em desastre, na falta de rémedio, facilmente encontra-se um bode expiatório, culpado por tudo que acontece de ruim. Lindemberg tinha sonhos: ter um carro, uma casa, uma família; coisas que naturalmente todos querem. No entanto, a retroalimentação de uma vida baseada unicamente no poder econômico via novelas e programas de entrevistas baratos que mostram a sociedade como feita só de riqueza, viagens a Europa e EUA, carros, namorad(o)as lindas, superfaturam o sonho de ter um fusca na busca frenética por ter uma Ferrari. E o sonho com sabor de hortelã vira pesadelo com gosto de fel. Lindemberg era trabalhador e lutador. Uma série de decepções detonaram um processo difícil de compreender, injustificável e homicida. No entanto a morte do rapaz nunca resolverá o problema de milhares de potenciais Lindembergs que estão por aí a assistir a suas novelas Favoritas...

Ich habe genug, BWV 82a, J S Bach

A primeira ária desta linda cantata acredito que seja a música ideal para quem gosta de escrever poesia. Ou pintar quadros. Um oboé que desliza como aquarela sobre a tela do acompanhamento de cordas. A primeira vez que ouvi esta ária foi num filme, "The Turning Point", sobre um livro de Fritjof Kapra, e desde aquele momento senti que esta música realmente é mágica. Depois, um amigo, e um dos maiores entendidos de Bach que conheço, Flávio Giordani, fez uma audição em sua casa, comentando ponto a ponto. Para poetas, pintores, artistas... para todo ser humano. A versão abaixo é a primeira ária, cantada por Thomas Quasthoff, interpretada por Berliner Barock Solisten, selo Deustch Grammophon.

Salvando o Ibope do sábado

sábado, 18 de outubro de 2008

Música e Cinema: Pedro e o Lobo

Para quem gosta de música e também de animações, abaixo um trecho do DVD "Peter and the Wolf", ganhador do Oscar de melhor curta de animação 2008. Prokofiev, o autor da magnífica música, escreveu a obra Pedro e o Lobo em 1936, quando retornou para a então União Soviética. A obra é repleta de sons da natureza e de leitmotifs. É uma história para crianças e adultos sobre um garoto que decide caçar um lobo. Na história original, assim como em Chapeuzinho Vermelho, o lobo é morto sem piedade, o que contrasta com a versão deste DVD, onde temas ecológicos são evocados e Pedro se torna simpatizante do lobo. Além disso, o filme é uma narração muda e muito bem feita porque as imagens falam por si mesmas, o que é uma vantagem já que você pode comprar o DVD em qualquer país sem se preocupar com o idioma (na versão original existe um narrador; inclusive Sting e Cláudio Abbado produziram um ótimo DVD "Peter and the Wolf" em 2007). A técnica empregada é a de stop-motion, o que na minha opinião cai muito bem nesta animação, causando efeitos rústicos mas ao mesmo tempo artisticamente ideais para serem vistos por uma criança, ou um adulto querendo ser novamente criança. A diretora e roteirista Suzie Templeton ambienta a história na Rússia atual, mostrando a vida de um garoto que mora na zona rural russa.

Na música, os principais sons mimetizados por Prokofiev são o do pato (tema tocado no oboé), do passarinho (tema da flauta), gato (clarinete), avô de Pedro (sua voz é interpretada por um fagote), lobo (tema belíssimo e misterioso interpretado por três cornes franceses), e o tema (encantador e historicamente conhecido) de Pedro que é interpretado pelos naipes de cordas. Só para situar a música em seu tempo, na mesma época Heitor Villa-Lobos compôs as Bachianas Brasileiras n. 2, onde é tocado o famoso tema do Trenzinho Caipira.

DVD: Peter and the Wolf, 2006. Diretor: Suzie Templeton. Música: Sergei Prokofiev. Interpretação: Philarmonia Orchestra. Gravado no Royal Albert Hall em 2006.
Minha cotação:
Como adquirir:
Site da Amazon (clique para comprar)

Para vegetarianos, pão com manteiga

















Clique na figura para ver

Neste ano completei onze anos de vegetarianismo e ao mesmo tempo onze anos de boa convivência com todos os carnívoros do planeta. Pensando direitinho, ser vegetariano, no mundo, é algo muito complicado. Que diga o meu grande amigo, o Roldão, que tem até mais histórias que eu a contar. Só houve um lugar em que de fato me senti à vontade: Inglaterra (acho que a apologia do Paul McCartney, toda a influência indiana, mais todo um medo da vaca louca e mais o preço da carne contribuem para que o UK seja o lugar mais vegetariano do planeta). Até na Índia, local onde supostamente existiriam muitas opções vegetarianas, me deparei com um mar de curries de frango inesperado. (Na China nem se fala: o ditado corrente é que dos animais de quatro patas o chinês só não come mesa, e dos alados, só não come avião.) Austrália até que me senti mais ou menos bem. EUA (quero dizer California), Alemanha e Dinamarca foram lugares em que me surpreendi negativamente: pensei que lá encontraria muitas opções vegetarianas, mas encontrei um mar de lingüiça, salsicha e barbecues mega-gordurosos. França, Espanha, Itália e demais países latinos em que fui sempre me preparei para o pior, pois como bom brasileiro nordestino, sou parcialmente herdeiro da cultura destes últimos países ao fazer parte da bela, mas carnívora, tradição íbero-árabe-afro-indígena.

Enfim, estive uma vez em uma cidade do interiorzão do sul do Brasil, que por enquanto não contarei o nome, de fortes tradições alemãs. Na cantina da universidade, fui tomar um café da manhã e perguntei à simpática senhora por alguma coisa que não tivesse carne. A resposta naturalmente foi: coxinha. Expliquei que coxinha de galinha tem carne, de frango. Depois de outras explicações, ela fez aquela cara de espanto (que carnívoros sempre fazem para vegetarianos), e acabou por dizer: "Bem, se o Sr. pedir com atencipação de um dia, posso providenciar um pão com manteiga". Agradeci cordialmente e fui na padaria mais próxima em busca do pão com manteiga quentinho feito na hora.

sábado, 11 de outubro de 2008

Frase da semana

Recebi nesta semana um email de Flávio Costa, sobre a crise financeira, que gostaria de compartilhar:

From: Flavio Costa
Date: 2008/10/11
Subject: Re: Crise: entenda

Joelmir Betting falou no seu comentário um dia desses uma frase interessante: "Quando os especuladores ganham dinheiro, o lucro é deles... quando eles perdem dinheiro, o prejuízo é nosso!" Isso é que é lasca.... a socialização do prejuízo!!

Ai depois me lembrei do filme "The Story of Stuff" (http://video.google.com/videoplay?docid=-3412294239230716755) quando Lula incentivou os brasileiros a irem as compras no Natal (http://oglobo.globo.com/economia/mat/2008/10/10/lula_diz_que_natal_sera_extraordinario_no_brasil-549144871.asp).

Flávio

Pau de arara em Cambridge

Peguei um pau de arara
Num avião da TAM
Desembarquei em Cambridge
Fui ser mão de obra
Ajudante de pedreiro
Nesta construção sem fim
Do edifício de campos e partículas

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Big Bang Pernambucano

Matéria do Diário de Pernambuco sobre o LHC:

"Pernambucano que participou dos dois mais polêmicos eventos realizados no mundo nos últimos anos faz palestras para estudantes no Recife"

Matéria completa em

http://www.diariodepernambuco.com.br/2008/10/08/urbana6_0.asp