terça-feira, 21 de outubro de 2008

Falarei agora e depois calar-me-ei para sempre

Existe um pequeno e pontual fenômeno cultural permeando a sociedade brasileira nesta última semana. Envolve aparentemente três pessoas cujos nomes são Eloá, Nayara e Lindemberg. Digo "aparentemente" porque acredito que as raízes são bem mais profundas. Decidi escrever este rápido tópido por um motivo: todo mundo só fala nisso e as pessoas não percebem que o assunto, apesar de importante, está sendo superdimensionado por uma imprensa que infelizmente está em busca de uma única coisa: lucro. Segunda-feira, 20/10/08: o Jornal da Record tem 98% da programação dedicada ao caso; o Jornal Nacional, 97%; o Jornal da Band, mais coerente, dedicou apenas 30%, o merecido. Amo a imprensa livre: mas o que dizer da imprensa não pluralista, que se aproveita desta liberdade para dar a impressão que a vida é baseada em um único foco, escondendo muitas belezas vindas da arte e dos saberes, em nome da audiência? Sei que jornalistas e executivos têm que ver o seu empreendimento crescer. E concordo que eles devam pensar desta maneira. Mas como não sou executivo de imprensa e nunca serei, acredito que o telespectador não merece ser bombardeado dessa maneira. Televisão, falo principalmente dela, é um veículo de fácil absorção, onde imagens descem como água pela goela psicológica abaixo, beirando o perigo de lavagem cerebral. E por isso notícias baratas acabam prendendo fácil fácil qualquer pessoa, por mais conscientizada que ela possa parecer. É como nicotina: fuma e verás o que acontecerá. Censura nunca, que é contra a liberdade. Mas como cidadãos livres também temos o direito de boicotar e nunca exercemos esta liberdade. Em consonância com tudo isso, vem o orkut, que se transformou no espelho da sociedade brasileira: comunidades de ódio a Lindemberg se alastram caoticamente, pedindo pena de morte, linchamento, desejando o pior para o rapaz. E esse ódio, quem gerou? Eu seria muito reducionista em dizer que foi apenas a mídia mercantilista e pirata. O sistema social é muito mais complexo. A formação de opinião vem a partir do compartilhamento de informações, de ouvir alguém com influência na comunidade ou no ambiente de trabalho. Mas não tenho dúvida que a opinião de um apresentador de programa policial é irremediavelmente pesada. A imprensa tem alimentado os vícios de uma sociedade doente. Quando tudo acaba em desastre, na falta de rémedio, facilmente encontra-se um bode expiatório, culpado por tudo que acontece de ruim. Lindemberg tinha sonhos: ter um carro, uma casa, uma família; coisas que naturalmente todos querem. No entanto, a retroalimentação de uma vida baseada unicamente no poder econômico via novelas e programas de entrevistas baratos que mostram a sociedade como feita só de riqueza, viagens a Europa e EUA, carros, namorad(o)as lindas, superfaturam o sonho de ter um fusca na busca frenética por ter uma Ferrari. E o sonho com sabor de hortelã vira pesadelo com gosto de fel. Lindemberg era trabalhador e lutador. Uma série de decepções detonaram um processo difícil de compreender, injustificável e homicida. No entanto a morte do rapaz nunca resolverá o problema de milhares de potenciais Lindembergs que estão por aí a assistir a suas novelas Favoritas...

2 comentários:

  1. Não se cale não... você pode ser um grande formador de opinião, principalmente porque faz isso por prazer, não por obrigação ou ganâncias :)

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  2. Com sua lucidez, coerência e honestidade, calar para que?
    Arnaldo Jabor é quem não deveria abrir a boca! :)

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