segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Halloween versus Cosme e Damião


Quando eu era pequeno, morava em São Paulo. Numa vila de bairro cheia de crianças. Um dia me deram um saquinho com doces. Nela estava escrito: Cosme e Damião. Eu tinha uns sete anos e foi a primeira vez que ouvi falar dos santos gêmeos. Na verdade sempre foi um costume, ao menos no Brasil, dar doces para as crianças no dia 29 de setembro, dia destes padroeiros. Dizem que eram santos médicos do século 3 que se recusavam a consultar por dinheiro (ou seja, com certeza os anti-padroeiros da classe médica moderna, huahuahua).

Ultimamente (e quando digo "ultimamente" quero dizer "mais de vinte anos") nunca mais ouvimos falar em Cosme e Damião. Talvez quem freqüente a Umbanda tenha uma intimidade maior. Fora isso, Cosme e Damião talvez nada mais signifique. Há muito tempo nada significa para médicos. E agora, significa apenas um "já ouvi falar" na cabeça dos pais das crianças.

Na última semana participei pela primeira vez do equivalente saxão globalizado de Cosme e Damião, que é a festa do dia das bruxas, ou Halloween para os íntimos. Esse nome tem origem numa contração do anglo arcaico Hallowe'en para a véspera do dia de todos os santos (All Hallows Eve). E parece que é uma festa de origem celta (os celtas habitaram desde a Espanha até a Escócia e Irlanda). Enfim, os imigrantes irlandeses e escoceses levaram essa coisa para os Estados Unidos no século 19, o que acabou virando febre local e agora efeito global.

Nunca na minha vida imaginei sair por aí com um saquinho a dizer "gostosuras ou travessuras". No condomínio em que moram meus pequenos primos parece que já é algo instituído há anos. Como nada escondo, participei sim da brincadeira. Mas também não escondo que fiz muitas reflexões no final do dia, principalmente depois de conversar sobre o assunto com dois dos meus melhores amigos: Filipe Luna (jornalista do programa Metropolis da TV Cultura) e Guilherme Luna (um dos maiores advogados de São Paulo).

Originalmente Cosme e Damião também não era uma festa brasileira. Foi introduzida por portugueses no século 16. As festas originais tinham relação com estações do ano, colheita e os índios eram os protagonistas. Com a vinda dos ibéricos (de herança judeu-árabe-celta-cristã-gótica), novas festas entraram no calendário, principalmente as festas cristãs. É possível que a festa de Cosme e Damião, como era conhecida por nossos avós, seja um sincretismo criado por nossos antepassados afro-descendentes e portugueses senhores de engenho. Uma festa que provavelmente participava da formação de uma identidade brasileira pré-globalização.

Agora, o conceito de identidade brasileira passa por uma forte transformação nesta geração Coca-Cola youtubizada. E seja lá o que aconteça, já percebi que Cosme e Damião será uma festa esquecida.

Infelizmente.

Sempre existe uma moda regida por grupos capazes de controlar a sociedade via centenas de tipos de mecanismos. Tais grupos jogaram Cosme e Damião no esquecimento. E Halloween acabará virando coisa normal. Assim foi com a Igreja Católica um dia. E quiçá com a Igreja Universal do Reino de Deus no futuro...

Neste momento só nos resta pensar se educar nossos filhos à base de "gostusuras e travessuras" seja realmente uma boa idéia. Eu particularmente rasguei minha fantasia de bruxo. Por enquanto no meu entender ainda é cedo para mergulhar tão profundamente na piscina do nosso querido tio Obama Sam. Domo Arigatô Gozaimashtá!

3 comentários:

  1. E por falar nos "porcões" da música dos Beatles, a pobre porquinha, ou seria a pobre patinha feia?, lembrou o seguinte: http://jc.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2008/11/03/desembargadores_aprovam_pagamento_de_adicional_por_tempo_de_servico_35689.php
    Meu Deus, as bruxas continuam soltas!!!
    Quero acordar do pesadelo desse halloween emporcalhado, tentar dormir (contando carneirinhos) e sonhar com Cosme e Damião... Amém!

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  2. Carlos, um filme que assisti uns 2 anos mais ou menos,chamado Didi quer ser criança,bem mostra um pouco Cosmo e Damião,confesso que fiquei maravilhada com eles.

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  3. Comentário interessante e pertinente. O único senão é que o dia São Cosme e Damião é celebrado em 27 de setembro.

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