sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Por que a música clássica não é popular aqui no Brasil?

Por Luciane Borges (Musicista e Pedagoga)

Muita gente não gosta de música clássica porque não consegue entendê-la.

A tendência atual de um mundo cada vez mais superficial, se reflete em todas as manifestações culturais humanas. A televisão exibe novelas onde o principal problema de seus personagens é a resolução de seus casos amorosos e problemas mesquinhos, pequenos e egoístas ambientado num mundo isolado e particular da personagem. Problemas mais profundos da existência humana, como a angústia de uma existência superficial, o problema do baixo nível cultural brasileiro, truculência policial, analfabetismo, corrupções políticas, fome... nunca são abordados.

Neste contexto, as crianças já crescem com dificuldades de concentração na leitura e problemas colegiais devido ao excesso de TV e a baixa qualidade de sua programação. Nesse meio alienante, já se espera a não compreensão do processo musical clássico, onde a beleza da música está na auto-reflexão que ela provoca, e essa auto-compreensão é exatamente o oposto da superficialidade em que estamos inseridos. Observamos que as pessoas preocupam-se menos consigo mesmo em sua evolução, e cada vez mais com vida dos outros. Vemos que as pessoas mais afetadas, sempre de baixo nível cultural, observam o mundo como que através de uma tela, e olham para você como se não pudessem ser igualmente observadas, como se não pudessem ser vistas em seus comentários pobres sobre a vida da outra pessoa. Essas pessoas estão, assim, excluídas do mundo, vivendo apenas como meros observadores, como mortos-vivos.

Onde está a consciência humana , o "Morcego" de Augusto dos Anjos, na sociedade moderna ?

A música clássica é um mergulho profundo nos sentimentos que regem a angústia da existência humana, servindo como uma catarse pessoal para o auto-aprimoramento do homem que tenta evoluir sempre equilibrando razão com emoção. É um exercício para a aniquilação do pequeno ego. Ego é uma palavra pequena, mas assim como pequenas traças podem derrubar grandes árvores, ele pode derrubar grandes homens.

A música clássica é repleta de estereótipos reducionistas. Vários instrumentos usados em orquestras são também discriminados e estereotipados. O violino, por exemplo, é tachado como um instrumento pouco dinâmico, com som melancólico e exótico, ativador de ondas alfa cerebrais. Porém em mãos certas, pode ser um instrumento tão dinâmico e agressivo quanto uma guitarra. No entanto, qualquer um que queira pegar um violino para tocar algo que não seja um clássico, aqui no Brasil, terá grandes dificuldades de aceitação, devido a marginalização sofrida pelo estilo de música que a ele está associado no inconsciente coletivo da população.

Existem composições clássicas que possuem tons tão densos e um ritmo tão carregado que poderia ser classificada como um heavy metal em violino, com a diferença que o violino continua afinado, ao contrário das guitarras pauleiras. Um exemplo desse estilo de violino agressivo é Paganini.

Outro fator que contribui para a não popularização da música é o alto preço do cd. A maioria desses cds são importados e possuem altos impostos imbutidos em seus preços, além da avidez do comerciante por lucros cada vez maiores, em uma tentativa de manter o seu nível de vida nesse país onde tudo aumenta arbitrariamente. Isso contribui para a pirataria da música, o que é bem justificado, pois simboliza a luta de um povo por sua sobrevivência cultural. Não estamos aqui defendendo a pirataria, pois acreditamos que quem teve o talento e a disposição de se enveredar pelo meio artístico e gravar um cd merece ser devidamente recompensado, mas não se pode falar em leis contra a pirataria se um simples cd, cujo custo de produção sai por menos de 2 reais, chega nas lojas por não menos de 30 reais. Isto é um problema das condições econômicas do país e de sua má administração.

Fora os preços, existe a dificuldade de obtenção dos mesmos. Os comerciantes não compram cds de clássicos pois acham que não haverá saída, e que música clássica não tem público. Talvez o público dos clássicos não supere realmente o público de músicas alienantes, mas seu público é fiel e é certo. Quem gosta de ouvir pagode ou forró, não é apaixonado por essa música. Já o público de música clássica é apaixonado pela música, e sempre busca adquirir tudo sobre a vida dos compositores, funcionameto dos instrumentos, traduções das óperas, muitos livros, etc. Muitos até possuem um instrumento em casa onde esboçam suas composições favoritas.

Um outro empecilho é a ausência de produção de música erudita e óperas brasileira. As composições disponíveis estão em idioma estrangeiro, o que dificulta a compreensão, restringindo o acesso ao sentimento comunicado pela música àquelas pessoas mais cultas que dominam outros idiomas além do vernáculo. Como educação é o bem mais escasso nesse país, então realmente esta restrição seja talvez a pior dentre as demais. Quem sabe um dia, se crie aqui aquele feedback tão necessário de se ouvir maciçamente um compositor brasileiro para estabelecer o crescimento deste bem, patrimônio eterno, que é a música de qualidade no nosso solo tupiniquim. Parece utopia, mas bastando um pouco de vontade, seja ela política ou comunitária mesmo, pode ser menos difícil do que pareça.

3 comentários:

  1. Discordo apenas da parte em que ela restringe ao público de música clássica a paixão pelo compositor e sua história.

    Sei que quem gosta dos discos da Motown, dos rocks bem feitos (Dream Theather, Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, etc) também vai atrás das biografias dos compositores e compra livros sobre o assunto.

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  2. E quando ela fala de forró, acho q existem coisas sofisticadas no forró sim. (Claro que estou falando de Luiz Gonzaga e Capiba, hehehe)

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  3. "Quem gosta de ouvir pagode ou forró, não é apaixonado por essa música. Já o público de música clássica é apaixonado pela música, e sempre busca adquirir tudo sobre a vida dos compositores, funcionameto dos instrumentos, traduções das óperas, muitos livros, etc"
    ACHEI MEIO PRECONCEITUOSO O ACIMA TRANSCRITO E CONCORDO COM O SEU COMENTÁRIO, CARLOS. ALÉM DE ACHAR, TAMBÉM, QUE NÃO SE PODE GENERALIZAR.

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