sábado, 30 de janeiro de 2010

As 7 maravilhas da música

Alguém me perguntou, se eu pudesse listar as sete maravilhas da música, o que eu listaria.

Não sou tão conhecedor de música assim para fazer uma lista dessas. No entanto, gosto pessoal, o que eu colocaria:

Maravilha n. 1: Os oratórios e cantatas de Bach: brilhantes no sentido de apresentarem viço, e nitidamente um fogo para acender o pavio das almas apagadas.

Maravilha n. 2: As sinfonias de Mahler: inovações, jogos de percussão, metais e cordas, emoções infantis e frustrações adultas. Allegros intensos (como os finali das 1a e 7a sinfonias) e adagios altamente sofisticados e profundos (os da 4a e 5a sinfonias são exemplos claros) e coros cinematográficos (como os da 2a e 8a sinfonias). A quebra com o tradicional de tais sinfonias e suas variações atonais ou dissonantes são a chave para compreender por exemplo as trilhas sonoras do cinema do século 20.

Maravilha n. 3: Música instrumental de Bach: lute, cello, cravo bem temperado e órgão: são suítes, estudos e variações para instrumentos solo, como o lute (alaúde), o cello (essa nem precisa dizer) e o famoso cravo bem temperado (música clássica tradicional de verdade, apesar de barroca) e as inigualáveis obras para órgão: choro e triunfo harmônicos sem comparação.

Maravilha n. 4: O jazz como um todo: a música africana no limite da sofisticação; viva a mama África.

Maravilha n. 5: As ragas indianas para kitar e tablas: virtuosidade e acordes nunca sonhados pela música ocidental.

Maravilha n. 6: Os motetos e missas de Palestrina: mais misteriosos que o canto gregoriano, de uma polifonia contrapontística nunca antes vista.

Maravilha n. 7: A bossa nova e o samba canção: formas brasileiras autênticas, de harmonias admiradas em todo o mundo.

Maravilha extra: A 9a. sinfonia de Beethoven: uma ode à alegria!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Hoje, na TV aberta, às 7h da manhã

Na casa da minha mãe existe na TV uma programação similar àquela veiculada por antenas parabólicas.

A programação da TV aberta mais alguns canais da TV pública e canais de venda.

Às 7h da manhã da data de publicação deste post, eu vi o seguinte:

1) Total de canais = 24

2) Canais com teor religioso = 11

3) Canais exclusivos para venda de produtos = 4

4) Redes comerciais sem teor religioso = Globo, SBT e MTV

5) Redes públicas = NBR, Brasil, Justiça, Senado, Camara

6) Rede institucional = TV Sesc

Parei para ouvir um pouco o que se dizia nos canais. Vamos lá:

1) Três canais passavam uma tal de Igreja Mundial do Poder de Deus. Canal número um: pessoas formando fila e dando testemunhos sobre milagres: "fiquei curada de uma dor de barriga, glória Jesus", "eu tinha um caroço na bexiga e ele acabou de sumir", "minha unha estava encravada e acabou de desencravar". Canal número dois: o apóstolo Santiago, com chapéu de caubói, lia a seguinte passagem da Bíblia: "Então subiu Rezim, rei da Síria, com Peca, filho de Remalias, rei de Israel, a Jerusalém, para pelejar; e cercaram a Acaz, porém não o puderam vencer". E então comentou: "vejam meu amigo e minha amiga, a fé em Deus que Acaz tinha, o maior exemplo de fé que já vi na vida, fé para destruir o inimigo, para destruir Rezim. Rezim era um rei muito mau e Acaz um homem temente a Deus". No canal número três: cerca de vinte pastores no alto de uma montanha socavam botijões de água mineral e clamavam pela bênção. A água teoricamente será distribuída em copinhos especiais no culto do dia seguinte.

2) Na TV Record, a Igreja Universal. Um bispo explicava que à meia noite ocorrem os principais rituais de magia negra e que hoje, à meia noite haveria no templo central uma tal de "corrente da meia noite com a bênção das sete águas". E amanhã, "a quinta feira da humilhação, tarde de milagres".

3) Em dois mais outros canais, a Igreja Renascer em Cristo. O apóstolo Estevam Hernandez entrevistava uma criança de sete anos. A criança explicava a importância de participar do culto e dar o dízimo.

4) Dois canais apresentavam a Igreja Internacional da Graça de Deus. O bispo Soares estava informando o número da conta Bradesco da igreja, e dizia: "seja um patrocinador".

5) Dois canais católicos apresentavam a missa. Na plateia somente pessoas acima de 40 anos. Numa delas o padre gaguejava: "hoje todo mundo procura por novidades, é novidade pra cá, é novidade pra lá, o padre procura novidade, o casal procura novidade, a criança procura novidade; é novidade pra cá, é novidade pra lá..."

6) Paiva Netto falava sobre a vida de Buda Sakyamuni na tv que divulgava a Legião da Boa Vontade e depois falava da importância de ser doador e falava a conta para contribuir.

Nos canais não religiosos:

1) Na TV Justiça alguém dava aulas de direito penal; na NBR, a TV Escola; TV Brasil: um documentário sobre a arte da fotografia; TV Senado: um documentário sobre a arqueologia na Serra da Capivara; TV Camara: Michel Temer falando de honestidade.

2) A TV Sesc apresentava um curtametragem sobre moradores de rua sob o minhocão em São Paulo.

3) A MTV passava um clipe musical do Beavis & Butthead,

4) SBT: desenho animado do pica-pau.

5) Na Rede Globo, o Bom Dia Brasil dizia: "médicos chamam a atenção dos foliões sobre os perigos de se dormir pouco durante o carnaval". Logo após, apresentou o carnaval de Salvador, um show do Olodum e então o âncora fez o comentário: "eu aqui mesmo vou dormir pouco no carnaval; não tenho problema de sono".

Foi isso que vi... 90% dos brasileiros estão submetidos a esse tipo de programação. Amanhã é um nova dia e prefiro não ligar mais a TV.

Cahiers du Cinema: n. 1 - Cidadão Kane

A Cahiers du Cinéma, publicação francesa considerada uma das mais importantes críticas do cinema mundial, publicou neste em 2009 um livro em que elege os cem filmes obrigatórios em qualquer cinemateca. Foram reunidos cerca de setenta críticos, diretores e outros profissionais ligados à sétima arte para a escolha das produções.

O melhor filme escolhido foi "Cidadão Kane" (1941), estrelado e dirigido por Orson Welles. À época, Welles tinha apenas 25 anos e já tinha se tornado famoso em 1939 ao transmitir por rádio a invasão dos marcianos aos EUA, narrando "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, como se fosse uma história de verdade e ao vivo.



Em 2007, a American Film Institute já tinha feito uma lista dos cem melhores filmes estadunidenses de todos os tempos, onde "Cidadão Kane" também figura como melhor filme.

Conclusão: mesmo que você conheça o filme e discorde das listas, assim como eu discordo, é incontestável o resultado de uma pesquisa estatística bem elaborada, que resumiria a opinião de muitos. E ainda mais se existem duas pesquisas, no caso as listas citadas. Logo, apesar de "Cidadão Kane" não ser o filme da minha vida, considero o resultado da lista válido.

Vamos ao filme em si: acho-o extraordinário, cinco estrelas, e aborda um tema de vital importância, que é o das gigantescas conseqüências que a manipulação da mídia pode gerar sobre a sociedade e sobre o indivíduo que cria tal manipulação.

O filme, dado o seu espírito ousado e perturbador, acabou não levando o Oscar. Levou o de melhor roteiro, incontestavelmente o melhor roteiro já escrito para o cinema até aquele momento. Complementarmente, "Cidadão Kane" faz uso de flashbacks, sombras, tem longas seqüências sem cortes, mostra tomadas de baixo para cima, distorce imagens para aumentar a carga dramática, algo tecnicamente revolucionário para a época. Tudo isto certamente cegava as produções concorrentes, mas mesmo assim não garantiu a estatueta nua, o que mostra que o Oscar desde então já havia se tornado um prêmio no mínimo desconfiável.

O roteiro, co-escrito por Orson Welles, é magnífico e conta a história de um menino pobre, mas ambicioso, Charles Kane, que abandona os pais para se tornar filho adotivo de um banqueiro milionário. Na maioridade herda os negócios do "pai"e decide se embrenhar num dos menos rentáveis, que é um jornal sem muita fama. Por meio de diversas manobras agressivas e populistas consegue transformar seu veículo de comunicação no mais influente e no mais manipulado. Por conseqüência Kane percebe que tem o "mundo a seus pés" e decide usar isto para entrar com força na cena política. O personagem central vai, aos poucos, perdendo suas virtudes. Pode ser visto retrospectivamente como alguém amargo, sombrio, arrogante, manipulador, cruel e impiedoso. Sua trajetória, no entanto, encerra muito do sonho americano: idealismo, espírito de iniciativa, fama, dinheiro, poder, mulheres, imortalidade.

Também, a trajetória de Kane foi comparada a partir de então com a de muitos políticos e empresários da imprensa. O Brasil teve um verdadeiro cidadão Kane em Assis Chateaubriand. Coisa mais recente, a BBC de Londres faz a comparação entre Kane e Roberto Marinho, falecido dono da Rede Globo. O documentário é conhecido como "Além do Cidadão Kane". Foi produzido em 1993, motivado pela vitória de Fernando Collor em 1989, quando ganhou as eleições para presidente após uma manipulação maciça engendrada pela Rede Globo. Nunca tal documentário foi veiculado na televisão brasileira: foi proibido judicialmente. No entanto, aqui temos nós os dourados dias de internet. E abaixo repasso para vocês o documentário na íntegra.

Cahiers du Cinema: n. 2 - O Mensageiro do Diabo

O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter, Charles Laughton, 1955) foi um fiasco à época em que foi produzido. E ainda é. Pouquíssimos conhecem esse filme. De baixo orçamento, no entanto altamente inventivo, o filme conta a história de um golpista do baú, que se casa com viúvas ricas com finalidades nada lisonjeiras. No entanto, eis que ele se casa com a viúva de um ladrão de bancos, o qual ele havia conhecido na cadeia e que escondera uma alta soma em dinheiro em local misterioso. A única pessoa que sabe onde está escondida a alta quantia é o pequeno filho que o ladrão deixara. Assim, o filme toma um aspecto aterrorizante, pois o diretor nos catapulta diretamente na alma da criança: o expectador inevitavelmente incorpora todos os medos do menino perseguido (que passa boa parte do filme fugindo junto com a irmãzinha) e este é o grande trunfo do roteiro. Robert Mitchum, que encarna o sádico e carismático golpista, está irrempreensível. Dizem que ele participou tão intensamente do filme que foi praticamente um codiretor. As cenas ao longo do Rio Mississipi são magníficas. Quatro estrelas.

Cahiers du Cinema: n. 3 - A Regra do Jogo

A Regra do Jogo (Regle du Jeu, Renoir, 1939) apela para um visão realista sobre as atividades e passatempos da classe rica francesa da década de 1930, explorando cada situação de forma jocosa e divertida, levando inevitavelmente à reflexão sobre comportamentos sociais. Cinco estrelas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cahiers du Cinema: n. 4 - Aurora

Aurora (Sunrise: a Song of Two Humans, F W Murnau, 1927), como os melhores filmes mudos da década de 1920, também é uma produção estadunidense dirigida por um alemão. Nele, a vida de um pacato casal que mora numa pequena cidade nas margens de um lago é perturbada por uma garota que vem da cidade grande, e que, não vendo graça na monótona vida interiorana, decide seduzir o jovem esposo. Todas as noites, sem pejo algum, o rapaz passa a sair escondido de casa para encontrar-se com a garota ambiciosa. A surpresa vem do fato de que já de início o espectador conhece os planos sinistros do roteiro: que o jovem mate a esposa e fuja com a moça descarada para a cidade grande. Isso de início me causou estranheza porque surge de forma bastante repentina. No entanto, o desenvolvimento dramático de tal plano é uma das sequências mais interessantes que já vi, sendo o grande trunfo de Murnau e provavelmente a causa para levar o filme à quarta posição na lista do Cahiers du Cinema. Também a discussão sobre o contraste entre vida no campo e vida na cidade grande é um ponto alto da película. No entanto, o filme perde intensidade em muitos momentos, graças ao uso do pastelão gratuito (a cena do porco soa totalmente sem sentido e sem graça) e dos vários instantes de "enchimento de linguiça" usados claramente para atrair as famílias estadunidenses da época. Três estrelas. Abaixo o trailler.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Cahiers du Cinema: n. 5 - O Atalante

O Atalante (L'Atalante, Jean Vigo, 1934) é um filme insoso do ponto de vista de produção. O roteiro é simples, mas mesmo assim original e elegante. A direção é primorosa, no entanto o realismo beira o documental, e confesso que isso não me agradou muito, embora eu reconheça os méritos do filme. Após o casamento, Juliette e Jean passam a morar num barco, de nome Atalante. A vida no barco se torna tão monótona que Juliette decide descer da embarcação em Paris e conhecer a vida noturna, e lá é seduzida por um belo rapaz. O marido, possesso, abandona a esposa à própria mercê e Juliette se perde e passa a viver em duros apertos. O que me conquistou no filme foram os tripulantes do barco, principalmente o velho capitão, père Jules, personagem marcante e muito engraçado. Fora isso, não é filme para mim. Duas estrelas. Abaixo uma cena de que gostei, a do mergulho.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Cahiers du Cinema: n. 6 - M, o Vampiro de Dusseldorf

M, o Vampiro de Dusseldorf (M, Fritz Lang, 1931) apesar do nome não é um filme sobre vampiros. Clássico do cinema alemão, cinema este que ainda não havia caído nas garras do partido nazista, M retrata o mundo de um psicopata ninfomaníaco, tema certamente considerado tabu naquela época. A sutileza do filme está não em enfatizar os crimes do psicopata, mas em mostrar a reação do povo, sedento por linchar o assassino. Muitas vezes o espectador ficará em dúvida quem é o verdadeiro psicopata da história. A atuação do ator principal (Peter Lorre) é extraordinária. Destaque para o monólogo final de M, onde ele é julgado por uma corte presidida por criminosos que também querem a sua morte, já que a polícia aumentou a fiscalização nas ruas por causa do assassino. O filme se perde um pouquinho no diálogo de policiais e bandidos. Quatro estrelas.

Cahiers du Cinema: n. 7 - Cantando na Chuva

Cantando na Chuva (Singing in the Rain, Stanley Donen, 1952) é um musical que conta de forma interessantíssima a fase em que o cinema mudo estava sendo substituído por filmes falados e as consequências tragicômicas do fato. Gene Kelly codirige o filme, criando as coreografias inteligentes e inesquecíveis, como a famosa cena do "i'm singing in the rain", que abaixo é reproduzida. Naturalmente, cinco estrelas.

Cahiers du Cinema: n.8 - Um Corpo que Cai

Um Corpo que Cai (Vertigo, Alfred Hitchcock, 1958) é simplesmente magnífico por explorar os medos e psicoses humanas a partir de um filme policial com fundo romântico. Embora não exista nada de sobrenatural no filme, Hitchcock consegue utilizar alguns mistérios que apesar de simples conseguem provocar diversos calafrios no espectador. O roteiro excepcional já vale as cinco estrelas que dou ao filme. Abaixo veja o trailler.

Cahiers du Cinema: n. 9 - O Boulevard do Crime

O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, Marcel Carné, 1945) é um filme que se divide em dois capítulos. O primeiro capítulo, chamado Le Boulevard du Crime, basicamente nos apresenta os personagens que vivem na Paris do século 19. Baptiste (Arletty) é um mambembe espetacular que se apaixona pela atriz estreante Garance. No entanto, Baptiste irá se casar com a filha do dono do teatro e amarga um amor por Garance, que é correspondido, embora ela opte por se casar com um rico Barão, apenas por dinheiro. Além disso, diversos personagens também são apaixonados por Garance, dando complexidade ao roteiro. No segundo capítulo, passam-se anos, e Baptiste e Garance voltam a se encontrar, sob os olhares enciumados de seus cônjuges e a língua ferina de antigos amantes. A excepcional atuação de Arletty, como pierrô e como Baptiste, já vale o filme. Cinco estrelas na certa. Abaixo uma das cenas onde Arletty atua como pierrô.

Cahiers du Cinema: n. 10 - Rastro de Ódio

Rastro de Ódio (The Searchers, John Ford, 1956) é um filme mais que um simples faroeste. Nele vemos Ethan Edwards (John Wayne em ótima atuação), ex-oficial do exército confederado, um homem para o qual os índios representam o mal encarnado, empreendendo uma busca de anos a fio pela sobrinha desaparecida, sequestrada pelos índios apaches. O surpreendente é perceber o quanto a sobrinha encontra-se mudada ao final da longa busca. Existem cenas desnecessárias, a meu ver, que exploram em demasia o bang bang. Dou quatro estrelas. Abaixo o trailler do filme.

Cahiers du Cinema: n. 11 - Ouro e Maldição

Ouro e Maldição (Greed, Erich von Stroheim, 1924), um filme mudo em preto e branco com algums cenas que apelam para o amarelo, dourado do ouro. O filme mostra a saga de John McTeaghe, ex-mineiro, agora dentista e o que acontece quando sua noiva fica milionária após ganhar na loteria. Filme excelente, cinco estrelas, que encena os desejos e misérias humanas. Foi recentemente remasterizado, com excelente trilha sonora de Robert Israel. Veja um trecho abaixo, que é a famosa cena do Vale da Morte.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Superman: missão Camargo Corrêa

A exosfera terrestre é linda e o que ele ouve de lá, com sua superaudição, é um grande misto de louváveis realizações humanas com os piores pesadelos já imaginados.

Infelizmente nada ele pode fazer quanto ao terremoto no Haiti: essa é a tragédia natural dos seres vivos. Cataclismas da crosta como vulcões e terremotos são elementos aos quais ele não pode interferir, está acima de suas próprias forças. E além disso, Hilary Clinton não assumiu de vez o controle de todas as operações aéreas haitianas?

Há diversos crimes de pequeno porte sendo cometidos em toda parte dos Estados Unidos. Mas ele já estava cansado de dar atenção constante e pontual ao país do tio Sam, resolvendo casos complexos como tirar gatinhos de árvores ou salvar Louis Lane de um mero tropeção na rua.

Agora portanto ele iria se concentrar melhor, buscar crimes de verdade e de fato fazer jus ao supernome que lhe tinham dado. A triste sina de Kal-El, aquela de prender ladrões de galinha, acabaria hoje, aos vinte e um de janeiro de dois mil e dez, anno domini fique claro.

Do alto de seu pedestal ele observa a formação de uma perigosa quadrilha. Enquanto a CNN, o Le Monde e a Rede Globo, e portanto a opinião do mundo, se concentram no terremoto de um país olvidado, todos se esqueceram da formação de uma quadrilha perigosíssima em terras do Brasil.

"Para o alto e avante", diz ele quando, com sua superaudição, supervisão e o raio que o parta, percebeu finalmente um crime realmente sério. Do cruzamento de informações captadas das ondas eletromagnéticas de telefones celulares com as trilhões de informações que o seu cérebro era capaz de processar por segundo, ele chega à solução de um dos maiores crimes de corrupção da história.

É um pássaro, é um avião? Não, todos já sabem quem é. Voando por entre as nuvens do espaço aéreo brasileiro, ele desce sobre uma gigantesca mansão, mais castelo que casa, e na enorme piscina constata três figuras a conversar alegremente: Pietro Francesco Giavina Bianchi, Dárcio Brunato e Fernando Dias Gomes, diretores da construtora Camargo Corrêa.

Um deles diz:

"Mano, você viu a cara do Temer, depois que viu a transação sendo concluída? O velho babava feito criança!"

Ao que o outro responde:

"Porra, esses caras são uns medíocres mesmo, né? Como é que uma obra, como aquela do metrô de Salvador é superfaturada em pelo menos quatro vezes o valor real, e ninguém diz porra nenhuma? Hahahaha! Só o Temer mesmo pra ajeitar as coisa pra nóis!"

Superman, cansado de ouvir tanta "senvergonhice", apresenta-se ao trio de compadres ao que, para ilustrar com um pouco de ação, é recebido a balas de metralhadoras, espingardas de calibre doze e todo o arsenal digno dos maiores grupos terroritas do planeta. As balas pipocam uma a uma sem fazer sequer cócegas ao homem de aço.

"Corre que o barraco caiu!", gritou Brunato.

Neste instante, o conhecido tema de John Williams começa a fanfarrar com força "tantantaaan!", Superman toma os três nos braços, arranca todas as confissões, que incluem os nomes Dantas, Temer e importantes figuras do PSDB e do PT, vai recolhendo um a um em suas casas e fazendo o delivery à Polícia Federal.

Todos estão presos! E Superman volta para o alto e avante, feliz por, pela primeira vez na história, ter atuado efetivamente contra o crime.

No dia seguinte, numa reunião secreta dentro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e outros Ministros, numa câmara inviolável feita de criptonita, e portanto vedada a qualquer ser com superpoderes, decidem e lavram os habeas corpus de todos os envolvidos. No documento lê-se: "não há provas suficientes para enquadrar os réus, já que o único testemunho advém de um ser não-humano trajando roupas coloridas e com capa vermelha; além disso, a inocência é garantida pois todos os réus alegaram suas inocências em juízo e foram usados meio ilícitos como carregar os supostos culpados pelos céus de Brasília sem que fosse pedida permissão para o uso do espaço aéreo".

Onde está o Superman quando mais precisamos dele? Silêncio geral...

Alguns dias depois, no New York Times de 28/01/2010 podia-se ler a seguinte manchete: "Superman é encontrado morto em sua casa no polo norte com tiro de criptonita no coração: não há suspeitos para o crime".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Hoje pisei no cocô e além disso...

... e além disso percebi que uma pessoa que se diz da classe média alta estava passeando com um cachorro e não recolheu os dejetos num saquinho, como teoricamente deveria fazer alguém que provavelmente tem carro zero, apartamento luxuoso e conta bancária rechonchuda. Mas pelo jeito, ainda estamos passando pela fase do "tenho dinheiro, mas não tenho educação". Coitado do sujeito: teve que ouvir um sermão meu; e eu que odeio dar sermões. Afinal acredito que todos devem fazer o que acham melhor, mas mesmo assim sou da opinião que deixar uma mina fecal preparada para explodir a qualquer pisada é no mínimo uma grande imbecilidade.

Assim, a reflexão aqui é simples: o quão atenciosas as pessoas são com a cidade em que moram? Ou ainda, qual o nivel real de cidadania dos supostos cidadãos?

Como bem se sabe, faço propaganda contrária à Rede Globo e não assisto à Rede Globo nem se me pagarem. No entanto, fiquei sabendo de uma pesquisa interessante realizada pelo Fantástico, vulgo Cansástico que tem relação direta com o título da postagem: a pedido do Fantástico, as companhias municipais pararam de varrer as ruas em um trecho de um quilômetro em sete cidades, durante o horário comercial de um dia útil.

Depois eles mediram a quantidade de lixo recolhida no chão no final do dia. E claro que cocô de cachorro entrou no bolo como lixo.

Fiz aqui uma correlação imediata do resultado e dos idhs (índice de desenvolvimento humano) das cidades relacionadas. Isso daria um ótimo artigo científico que não sei se terei tempo de fazer, mas sugiro a quem possa.

Vejam só:

1a) Salvador = 1,2 toneladas de lixo recolhido (pasmem!)
1b) Salvador idh = 0,805

2a) Fortaleza = 1 tonelada
2b) Fortaleza idh = 0,786

3a) Belém = 710 kg
3b) Belém idh = 0,806

4a) Rio de Janeiro = 680 kg
4b) Rio de Janeiro idh = 0,842

5a) São Paulo = 540 kg
5b) São Paulo idh = 0,841

6a) Goiânia = 203 kg
6b) Goiânia idh = 0,832

7a) Curitiba = 33 kg (uau!)
7b) Curitiba idh = 0,856

Com exceção de Fortaleza, os dados acima indicam uma possível correlação que indica que a quantidade de lixo diminui com o aumento de idh.

Os dados do idh acima são do ano 2000. Infelizmente tenho a leve impressão que a próxima vez em que o PNUD/ONU medir o idh de Salvador, a coisa ficará um pouco mais feia... Podem anotar minha profecia.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Pensamento do dia

Cada época tem o Paulo Francis que merece: se antes tínhamos o original, que, do alto de sua visão conservadora, revelava-se um articulista inteligente, interessante e divertido, agora temos imbecis como Reynaldo Azevedo e Diogo Mainardi, que escrevem com a mesma mediocridade com que pensam.

Pablo Villaça, Crítico de Cinema

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma canção de Mahler para mudar nosso mundo

Dietrich Fischer-Dieskau canta "Ging heut Morgen übers Feld", de Gustav Mahler, acompanhado da orquestra NHK regida por Paul Kletzki (Paris, 24 de outubro de 1960). Na música Mahler faz uma homenagem às coisas lindas do mundo, como o campo, o orvalho na grama e o canto dos pássaros. A natureza é feliz, embora o homem se sinta tão triste.

Abaixo vai a letra completa do Lieder.



Caminhei através dos campos nesta manhã
O orvalho ainda gotejava em cada folha de grama
E um passarinho alegre me falou:
"Ei, não é mesmo? Bom dia! Não é mesmo?
Ei, você! O mundo não está ficando maravilhoso?
Piu! Piu! Lindo e claro!
Este mundo me alegra tanto!"

E também as flores campânulas azuis do campo
Alegremente e espirituosas
Tilintavam para mim como sininhos -- dim, dim
A sua saudação matutina:
"Não está se convertendo em um mundo maravilhoso?
Dim! Dim! Que formosura!
Este mundo me alegra tanto!"

E então, apareceram os raios do sol,
O mundo repentinamente começou a resplandecer,
Tudo se encheu de sons e cores
E a luz do sol!
Flores e pássaros, grandes e pequenos!
"Bom dia! Não é por acaso um mundo maravilhoso?
Ei! Não é mesmo um mundo maravilhoso?"

Eu eu? Minha felicidade também começará agora?
Não, não...
Porque no mundo humano a felicidade não pode florescer...

***********

Notem o final melancólico. A melodia bem como a letra sugerem um mundo humano que não pode ser feliz. E tudo termina embalado por uma pequenina canção de ninar.

Este Lieder faz parte do primeiro ciclo de lieders de Mahler que tem como título "Lieder eines fahrenden Gesellen" (Canções de um companheiro de viagem), composta em 1884 e publicada em 1897. A canção também pode ser ouvida no primeiro movimento da Sinfonia n. 1 de Mahler, que sugiro ser ouvida pelo leitor buscador da boa música.

Sobre a Sinfonia n. 1, particularmente tenho a gravação conduzida por Rafael Kubelik, da Deustche Grammophon. Excelente. No CD inclui-se o Lieder acima completo, cantado igualmente por Fischer-Dieskau. Caso queira baixar o CD completo, entre no link a seguir:

Sic Transit Opera Mundi

Como ajudar o Haiti

Assim como muitos países africanos, o Haiti vive sob constante estado de revoltas, golpes militares, e sucessões presidenciais no mínimo desconfiáveis. Para não falar na exploração histórica de países como França e Estados Unidos, que vampirizaram o país por anos sem dar retorno cultural, educacional ou econômico (ver tópico abaixo, sobre os fatos históricos no Haiti).

Politicamente, sejamos realistas, que existe um paralelo entre países africanos e o Haiti. E para mim, este paralelo é muito claro: em ambos os casos os habitantes são negros.

Existiria algum fato genético por trás disso tudo?

Claro que não!

Existe sim um fato sinistro chamado racismo que domina culturalmente a cabeça dos países que detêm os maiores PIBs e maiores arsenais militares, e portanto a força. Eu sei que tais países estão se esforçando tremendamente para dirimir o problema, mas tudo é ainda muito recente: teorias eugenistas, racismo ariano, etc.

Historicamente é muito claro: países como Holanda, Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica saíram aos quatro cantos "colonizando" países da África, sugando os recursos naturais e cuspindo sobre os habitantes nativos. Na América, os EUA fizeram o mesmo ao se apossar de ilhas do Caribe habitadas principalmente por negros, transformando tais ilhas em verdadeiras zonas do baixo meretrício. E as ilhas, saibam agora, foram Cuba e Haiti. (A tempo, a revolução cubana de Fidel Castro foi promovida com o objetivo de colocar abaixo a casa de Maria Joana construída pelos EUA; se conseguiu ou não só a história poderá dizer...)

O Haiti tem os mesmíssimos problemas de Serra Leoa e Somália: presidentes aproveitadores, fantocheados pelas grandes potências, população com grandes problemas de saúde, educação e saneamento. Como os problemas sempre são enormes, os políticos daquele país acabam se acomodando nos colchões estofados pelo dinheiro de doações e impostos e adormecem em berço esplêndido, nada fazendo por sua população.

Fico a pensar se a intervenção do Brasil no Haiti tem mais cheiro de colonização europeia na África ou realmente poderia ser um esforço para tentar reconstruir o país. Por enquanto não entrarei no mérito da questão.

Para piorar, o terremoto.

Como podemos ajudar o Haiti nesse momento de urgência? O ideal é que tomássemos um avião para ajudar in loco a remediar a situação constrangedora de cadáveres apodrecendo na calçada, alimentando larvas de moscas e baratas, crianças sem os pais, à mercê das epidemias que se avizinham.

Como para muitos isso é complicado, darei o seguinte conselho: se ajudar monetariamente, por favor, faça a doação para órgãos da sociedade civil. Nunca doe para o governo. O governo não é o povo. O povo está muito melhor representado por agentes da sociedade civil. Assim, indico dois órgãos de relativa confiança (as contas abaixo são direcionadas diretamente para a ajuda ao Haiti):

Cruz Vermelha (http://www.icrc.org/web/por/sitepor0.nsf/html/helpicrc)
HSBC
Agência 1276
Conta corrente 14526-84
CNPJ é 04359688/0001-51

Pastoral da Criança (http://www.pastoraldacrianca.org.br/)
HSBC
Agência 0058
Conta Corrente 12.345-53
CNPJ 00.975.471/0001-15

Haiti, fatos históricos 1

  • No século XVIII, a região foi a mais próspera colônia francesa na América, graças à exportação de açúcar, cacau e café.
  • Após uma revolta de escravos, a servidão foi abolida em 1794.
  • Em 1801, o ex-escravo Toussaint Louverture tornou-se governador-geral, mas, logo depois, foi deposto e morto pelos franceses. O líder Jacques Dessalines organizou o exército e derrotou os franceses em 1803. No ano seguinte, foi declarada a independência e Dessalines proclamou-se imperador.
  • Da segunda metade do século XIX ao começo do século XX, 20 governantes sucederam-se no poder. Desses, 16 foram depostos ou assassinados.
  • Tropas dos Estados Unidos da América ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos no país.
  • Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais Estimé.
  • Após a derrubada de mais duas administrações governamentais, o médico François Duvalier foi eleito presidente em 1957.
  • François Duvalier, conhecido como Papa Doc, instaurou feroz ditadura, baseada no terror policial dos tontons macoutes (bichos-papões) - sua guarda pessoal -, e na exploração do vodu. Presidente vitalício, a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica.
  • Papa Doc morreu em 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier - o Baby Doc. Após os grandes protestos de 1986, Baby Doc fugiu com a família para a França.
  • Depois de mais um período de grande conturbação política, foram realizadas eleições presidenciais livres em dezembro de 1990, vencida pelo padre esquerdista Jean-Bertrand Aristide.
  • Em setembro de 1991, Aristide foi deposto num golpe de Estado liderado pelo General Raul Cedras e se exilou nos EUA.
  • Em maio de 1994, o Conselho de Segurança da ONU decretou bloqueio total ao país. A junta militar empossou um civil, Émile Jonassaint, para exercer a presidência até as eleições marcadas para fevereiro de 1995. Os EUA denunciaram o ato como ilegal. Em julho, a ONU autorizou uma intervenção militar, liderada pelos EUA. Jonaissant decretou estado de sítio em 1º de agosto.
  • Em setembro de 1994, força multinacional, liderada pelos EUA, entrou no Haiti para reempossar Aristide.
  • No período de 1994-2000, apesar de avanços como a eleição democrática de dois presidentes, o Haiti viveu mergulhado em crises. Devido à instabilidade, não puderam ser implementadas reformas políticas profundas.

Haiti, fatos históricos 2

  • A eleição parlamentar e presidencial de 2000 foi marcada pela suspeita de manipulação por Aristide e seu partido. O diálogo entre oposição e governo ficou prejudicado. Em 2003, a oposição passou a clamar pela renúncia de Aristide.
  • Em fevereiro de 2004, eclodiram conflitos armados em Gonaives, espalhando-se por outras cidades nos dias subsequentes. Gradualmente, os revoltosos assumiram o controle do norte do Haiti. Apesar dos esforços diplomáticos, a oposição armada ameaçou marchar sobre Porto Príncipe.
  • Aristide foi retirado do país por militares norte-americanos em 29 de fevereiro, contra sua vontade, e conseguiu asilo na África do Sul.
  • De acordo com as regras de sucessão constitucional, o presidente do Supremo Tribunal (Cour suprême), Bonifácio Alexandre, assumiu a presidência interinamente e requisitou, de imediato, assistência das Nações Unidas para apoiar uma transição política pacífica e constitucional e manter a segurança interna.
  • Nesse sentido, o Conselho de Segurança (CS) aprovou o envio da Força Multinacional Interina (MIF), liderada pelo Brasil, que prontamente iniciou seu desdobramento.
  • Considerando que a situação no Haiti ainda constitui ameaça para a paz internacional e a segurança na região, o CS decidiu estabelecer a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), que assumiu a autoridade exercida pela MIF em 1º de junho de 2004. Para o comando do componente militar da MINUSTAH (Force Commander) foi designado o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Exército Brasileiro.
  • Nas eleições gerais de 2006 é eleito o novo presidente René Preval que se diz alinhado com a União Europeia e ONU, e permite a volta de Aristide ao país.
  • Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de proporções catastróficas, com magnitude 7.0 na escala de Richter, atingiu o país a aproximadamente 22 quilômetros da capital, Porto Príncipe. Em seguida, foram sentidos na área múltiplos tremores com magnitude em torno de 5.9 graus. O palácio presidencial, várias escolas, hospitais e outras construções ficaram destruídos após o terremoto. O número de mortos não é conhecido com precisão, embora fontes noticiosas afirmarem que podem chegar aos 100 mil.
  • Hoje o Haiti é considerado o país mais pobre do hemisfério ocidental, com índice de desenvolvimento humano (IDH) igual a 0,532 (para comparação, o da Somália é igual a 0,284, o brasileiro é 0,813 e o norueguês é 0,971).

sábado, 9 de janeiro de 2010

Kibe DiCahco vegano/vegetariano

O segredo da receita, inventada por mim e por minha mãe Diana, é a linhaça e a aveia. Cuidado com a aveia porque ela pode predominar, caso seja colocada acima da medida. A receita a seguir foi eleita a melhor numa exposição vegetariana em Recife. Bon appétit.



Ingredientes:


Trigo para kibe (triguilho)
Proteína texturizada de soja (pts)
Linhaça (farinha)
Aveia (farinha)
Alho
Cebola
Limão
Hortelã (ou manjericão se preferir)
Óleo para fritar
Sal a gosto

Preparo:

Não vou colocar quantidades. Mas o interessante é que sejam medidas iguais de triguilho e pts. Inicialmente deixe de molho em recipientes separados a pts e o triguilho, ambos com água morna/quente. Depois de uns 15 minutos, escorra a água (de preferencia vc pode amassar a pts p sair toda a agua e tirar o amargor). Misture o triguilho úmido com a pts e amasse. Depois coloque farinha de linhaça e farinha de aveia (uma xícara para cada item está bom para quantidades equivalentes a pequenas bacias de triguilho e pts). Pique o alho e a cebola, misture à massa, coloque um pouquinho de suco de limão, a hortelã picada e sal a gosto (com manjericão também fica muito bom!). Separe uma panela funda para fritar. Coloque óleo até o suficiente para cobrir os bolinhos. Recolha um pouquinho da massa, amasse e faça os kibes no tamanho desejado e depois frite o suficiente para escurecê-los e deixá-los consistentes.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O super buraco negro de nossa galáxia


Minha dissertação de mestrado na Usp, publicada em 2005, aborda a possível maneira como os super buracos negros das galáxias foram formados no universo primordial. Muito provavelmente a partir de estrelas do tipo população III, que são ultra gigantes, tem tempo de vida curto e explodem em hipernovas deixando como semente buracos negros de tamanho intermediário.

Estes buracos negros se alimentam dos restos da estrela e do gás ao redor, acendendo-se, devido à intensa fricção do gás gerada pelo enorme efeito de maré criado pelo campo gravitacional do buraco negro. A energia liberada é absurda e o objeto criado é um miniquasar, que com o passar do tempo cresce e torna-se um quasar comum, o objeto mais luminoso de todo o universo.

Existe uma teoria chamada hierárquica que diz que os quasares foram crescendo graças à fusão póschoque com novos quasares. Várias fusões geraram objetos cada vez maiores com buracos negros centrais cada vez mais supermaciços. Com o passar do tempo, porém, falo aqui em milhões de anos, tais buracos negros passam a ter menos alimento e se tornam menos ativos. Os quasares começam a se apagar e a formar galáxias "inativas". Como a nossa, por exemplo.

Para ver minha dissertação de mestrado que explica o assunto com mais detalhe acesse aqui.

Hoje a Nasa divulgou imagens em vários comprimentos de onda de Sagittarius A* (Sgr A*), o centro de nossa galáxia (a Via Láctea). A figura, mostrada no início da postagem, tem exposição principalmente em raios-X, e foi captada pelo telescópio espacial Chandra.

Não é uma foto de buraco negro, como alguns sítios estão falando (por exemplo o UOL). É impossível tirar fotos de buracos negros, pois eles não emitem luz. No entanto, a região onde está o buraco negro, que contém diversos tipos de fenômenos físicos, podem irradiar luz em vários comprimentos de onda.

A imagem é importantíssima porque mostra que o buraco negro em Sgr A* consome menos gás do que o esperado. Atualmente sabe-se que este super buraco negro consome basicamente gás provindo de estrelas próximas, e as imagens do Chandra apontam para um modelo teórico para explicar os porquês da dieta balanceada do nosso buraco negro. Aparentemente o que vem ocorrendo é que o gás que se aproxima do buraco negro é afastado devido a pressões criadas pelo calor gerado na região de borda do buraco negro (região denominada tecnicamente de horizonte de eventos). Assim, o buraco negro acaba consumindo menos gás do que o esperado.

A imagem também mostra filamentos em raios-X que tem origem misteriosa e provavelmente são estruturas magnéticas estupidamente grandes que interagem com o fluxo de elétrons altamente energéticos produzidos por estrelas de nêutrons de giro rápido. Estes filamentos são mais conhecidos como nebulosas do vento pulsar.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O filme "Lula" é propaganda política?


Resposta: Claro que não.

Como vocês observarão no decorrer do presente blog, uma das coisas que mais tento é enxergar o governo Lula de forma transparente, aplaudindo as atitudes iluminadas e expondo criticamente as derrapadas insalubres.

Lula é importante como baluarte no diálogo sobre uma revolução no pensar de líderes sobre o meio ambiente e uma economia sadia. Lula não é um bom exemplo de como criar massa política a todo o custo, alla machiavelli.

Portanto, ponto pacífico, aqui não pago pau a Lula como faz Paulo Henrique Amorim no seu blog, e nem jogo ovos gratuitamente como fazem Diogo Mainardi e toda sua corja da revista Veja. (A tempo, para mim, tomar partido entre Serra e Lula é como ter que escolher entre o São Paulo e o Inter de Porto Alegre; um exercício muito complicado já que os dois são é mesmo socialdemocratas e eu um anarquista de carteirinha...)

Lula tem quase 90% de popularidade no Brasil.

Ele precisa de propaganda para se promover mais? Não.

"Lula, o filho do Brasil", dirigido por Fábio Barreto, é um ótimo exercício de como falar da vida de um presidente que ainda está em exercício sem recorrer ao glamour do enaltecimento político alla Goebbels em seus filmes sobre Hitler. É um exercício muito difícil, porque certamente há muita gente que nem viu o filme e já o está destruindo só porque é um filme sobre Lula e como "Lula é um analfabeto intransigente, bronco, arrogante e prepotente, logo não merece existir um filme sobre sua vida".

O filme não explora a vida política de Lula nos anos 1980 e 1990, tentando focar a relação do presidente com sua luta sindical durante a ditadura militar, e a importância que algumas mulheres tiveram em sua vida: as esposas Lurdes e Marisa, mas sobretudo a mãe, dona Lindu.

Dona Lindu, interpretada acima da média por uma Glória Pires impressionantemente presente, é praticamente o foco do filme. O ciclo de vida do filme tem relação com o nascimento de Lula e com a morte de D Lindu. A maioria das reflexões desenvolvidas giram em torno do que D Lindu poderia dizer sobre as atitudes que Lula toma.

E Dilma nisso tudo? Nem aparece, nem existe. Ela poderá ser beneficiada por causa do filme? Logicamente que sim. Certamente será! Mas mesmo assim, o filme não é propaganda política, porque não foi feito com esse intuito, e nem tem esse intuito, pois está longe de expor as conquistas e curriculum do presidente nos anos em que ele realmente fez alguma coisa pelo país.

O filme, baseado no livro de Denise Paraná, é sobre um brasileiro, que por acaso se chama Lula, que viaja do nordeste ao sudeste, assim como muitos outros, pobre, em situação delicada, pequeno e acompanhando sua mãe, e outros tantos irmãos. Apertados no paudearara. Estuda, luta, sofre e se destaca como líder sindical. Isso está muito bem apresentado, acompanhado da intensa, surpreendente e armorial trilha sonora de Jacques Morelembaum e fotografia perfeita de Gustavo Hadba, principalmente na ambientação do agreste nordestino.

O roteiro flui, a edição não é lá as mil maravilhas, mas o roteiro flui. Muitas cenas poderiam ter maior intensidade dramática como a hora em que Lula perde o dedo. Confesso também que o romance de Lula e Lurdes soou bastante piegas, o que não ocorreu para o caso do namoro Lula/Marisa. Enfim, a intensidade do roteiro poderia ser melhor explorada, mas como eu disse, tudo flui mesmo assim.

O estreante Rui Ricardo Diaz se sai muito bem, sem transformar o personagem em paródia do Lula da vida real. Convence. Somente nos discursos mais exaltados percebemos a fala rouca alla Lula.

Fico quase a concluir que o filme saiu realmente bom porque o diretor não queria pagar mico com o presidente do Brasil. E como gosto de bom cinema, não reclamo se foi assim mesmo, afinal o filme está muito agradável de se ver. Friso que não é um filme excelente, mas é agradável.

Dou minhas três estrelas e meia.

E ressalto: "Lula, um filho do Brasil" não é propaganda política, embora inevitavelmente será utilizado em benefício de alguém em algum momento.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Internacionalização da Amazônia

Eis um tema polêmico. Se eu concordo com a internacionalização da Amazônia? A resposta é "sim, concordo".

Para dizer a verdade, concordo com a internacionalização do mundo inteiro. Fora as fronteiras! Postos de imigração são grandes "pagações de mico".

No entanto, meu discurso só tem validade a partir do momento em que forem internacionalizados também os campos de petróleo do Iraque, a rota de escoamento de petróleo do Afeganistão, todo o Vale do Silício nos EUA, e assim por diante.

Logo, falar em internacionalizar a Amazônia no presente momento significa claramente atender a interesses de empresas que estão em sua maioria nos EUA e que possuem objetivos no mínimo escusos: laboratórios farmacêuticos em busca frenética pela patente de novos princípios ativos, empresas que reclamarão royaties pela água amazônica e por aí vai.

Abaixo um artigo bem esclarecedor do xará Carlos Chagas sobre o assunto. Agradeço ao amigo enciclopédia humana Cláudio Barreto por me chamar a atenção.

Amazônia: nova campanha para internacionalização

Carlos Chagas

Nada melhor do que começar o ano arriscando um palpite: qual o mais lamentável episódio de 2009? Em nosso entender, foi a demissão da ministra Marina Silva do Meio Ambiente, coisa que reacendeu a disputa travada faz décadas ou até séculos em torno da soberania na Amazônia. Aproveitam-se os eternos abutres do Hemisfério Norte para voltar à velha cantilena de constituir-se a região em patrimônio da Humanidade, devendo ser administrada por um poder internacional, sobreposto aos governos dos países amazônicos. Editorial do New York Times, no fim de semana, funciona como uma espécie de toque de corneta capaz de arregimentar as variadas tropas de assalto.


Vinte anos atrás incrementou-se a blitz institucionalizada por governos dos países ricos, de Al Gore, nos Estados Unidos, para quem o Brasil não detinha a soberania da floresta, a François Mitterand, da França, Felipe Gonzales, da Espanha, Mikail Gorbachev, da então União Soviética, Margareth Tatcher e John Major, da Inglaterra, entre outros. Quando de sua primeira campanha, George W. Bush chegou a sugerir que os países com grandes dívidas externas viessem a saldá-las com florestas, coisa equivalente a perdoar os países do Norte da África e do Oriente Médio, que só tem desertos.


Naqueles idos a campanha beirava os limites entre o ridículo e o hilariante, porque para fazer a cabeça da infância e da juventude, preparando-as para integrar as forças invasoras, até o Batman, o Super-Homem, a Mulher Maravilha e outros cretinos fantasiados levavam suas aventuras à Amazônia, onde se tornavam defensores de índios vermelhos e de cientistas lourinhos, combatendo fazendeiros e policiais brasileiras desenhados como se fossem bandidos mexicanos, de vastos bigodes e barrigas avantajadas.


Depois, nos anos noventa, a estratégia mudou. Deixou-se de falar, ainda que não de preparar, corpos de exército americanos especializados em guerra na selva. Preferiram mandar batalhões precursores formados por montes de ONGS com cientistas, religiosos e universitários empenhados em transformar tribus indígenas brasileiras em nações independentes, iniciativa que vem de vento em popa até hoje e que logo redundará num reconhecimento fajuto de reservas indígenas como países “libertados”.


Devemos preparar-nos para uma nova etapa, estimulada pela renúncia de Marina Silva, que entra de gaiata na história, pois jamais defendeu a internacionalização da floresta. Aliados à quinta-coluna brasileira composta por ingênuos e por malandros, dão a impressão de recrudescerem na tentativa de afastar o governo brasileiro da questão. Terá sido por mera coincidência que os Estados Unidos anunciaram a criação da Quarta Esquadra de sua Marinha de Guerra, destinada a patrulhar o Atlântico Sul, reunindo até porta-aviões e submarinos nucleares?


Do nosso lado, bem que fazemos o possível, aparentemente pouco. Não faz muito que uma comissão de coronéis do Exército Nacional, chefiados por dois generais, passaram meses no Viet-Nam, buscando receber lições de como um país pobre pode vencer a superpotência mais bem armada do planeta, quando a guerra se trava na floresta. Do general Andrada Serpa, no passado, ao ex-ministro Zenildo Lucena, aos generais Lessa, Santa Rosa e Cláudio Figueiredo, até o general Augusto Heleno e o coronel Gélio Fregapani, agora, a filosofia tem sido coerente. Nossos guerreiros transformam-se em guerrilheiros. Poderão não sustentar por quinze minutos um conflito convencional, com toda a parafernália eletrônica do adversário concentrada nas cidades, mas estarão em condições de repetir a máxima do hoje venerando general Giap: “entrar, eles entram, mas sair, só derrotados”.


Em suma, pode vir coisa por aí em 2010, para a qual deveremos estar preparados. Claro que não através da pueril sugestão do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de transformar soldados em guarda-caças ou guardas florestais. Os povos da Amazônia rejeitaram, na década de setenta, colaborar com a guerrilha estabelecida em Xambioá, mas, desta vez, numa só voz, formarão o coro capaz de fornecer base para uma ação militar nacional.


Para aqueles que julgam estes comentários meros devaneios paranóicos, é bom alertar: por muito menos transformaram o Afeganistão e o Iraque em campo de batalha, onde, aliás, estão longe de sair vitoriosos, apesar de enfrentarem o deserto e não a selva, mil vezes mais complicada…

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Isto é uma vergonha!

No vídeo abaixo, dois garis desejam feliz ano novo. Logo após, Boris Casoy comenta o seguinte:

Abre aspas

Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros, hehehe... O mais baixo na escala do trabalho.

Fecha aspas...

Se o vídeo abaixo não aparecer (vai que o Boris consegue bloquear), podem acessar um dos seguintes links

http://www.youtube.com/watch?v=XmIzFVhVMV8
http://www.youtube.com/watch?v=0H9znNpeFao
http://www.youtube.com/watch?v=RgH0w5XUcjA


Ranking da credibilidade ou...

... ou a prova experimental que faltava para demonstrar que no Brasil se assiste mais TV do que se deveria.

Prestem atenção: o Datafolha fez uma pesquisa com 11.258 brasileiros, e apresentou uma lista de 27 pessoas. A pergunta era: qual é o brasileiro mais confiável?

O primeiro lugar ficou com Lula. Resultado já esperado ao qual nada quero comentar.

O que me preocupa é o segundo lugar. Eu nunca imaginaria que William Bonner ficasse na posição de segundo brasileiro mais confiável.

Foi quase um empate entre Lula e Bonner.

Lembro quando eu era criança, eu assistia ao SP/TV e lá estava ele, William Bonner no início de carreira. Lembro bem porque minha tia Lucy dizia que eu era a cara dele. Eu deveria ter uns 8 anos.

Na década de 1990 Bonner foi promovido a apresentador do Jornal Nacional, ao lado de Cid Moreira.

Na década de 2000 Bonner foi promovido a Editor-chefe do JN e sua esposa, ex-apresentadora do Jornal Hoje, se transformou em co-âncora.


Uma carreira de sucesso, respeitável e admirável.

Se eu dissesse na TV todos os dias, às 20h, o mantra "compre baton, compre baton", certamente os brasileiros elegeriam Batons Garoto como o chocolate mais gostoso.

A pergunta é: Batons Garoto é realmente o chocolate mais gostoso?

Se eu pudesse desejar algo para 2010 para os brasileiros, certamente não seria paz ou saúde. Eu desejaria com todas as forças que as pessoas vissem menos novela e menos JN, lessem mais livros e refletissem mais sobre a vida.


Automaticamente, os brasileiros seriam mais pacíficos e mais saudáveis.


Duvida? Que tal fazer o experimento?