quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Cahiers du Cinema: n. 1 - Cidadão Kane

A Cahiers du Cinéma, publicação francesa considerada uma das mais importantes críticas do cinema mundial, publicou neste em 2009 um livro em que elege os cem filmes obrigatórios em qualquer cinemateca. Foram reunidos cerca de setenta críticos, diretores e outros profissionais ligados à sétima arte para a escolha das produções.

O melhor filme escolhido foi "Cidadão Kane" (1941), estrelado e dirigido por Orson Welles. À época, Welles tinha apenas 25 anos e já tinha se tornado famoso em 1939 ao transmitir por rádio a invasão dos marcianos aos EUA, narrando "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, como se fosse uma história de verdade e ao vivo.



Em 2007, a American Film Institute já tinha feito uma lista dos cem melhores filmes estadunidenses de todos os tempos, onde "Cidadão Kane" também figura como melhor filme.

Conclusão: mesmo que você conheça o filme e discorde das listas, assim como eu discordo, é incontestável o resultado de uma pesquisa estatística bem elaborada, que resumiria a opinião de muitos. E ainda mais se existem duas pesquisas, no caso as listas citadas. Logo, apesar de "Cidadão Kane" não ser o filme da minha vida, considero o resultado da lista válido.

Vamos ao filme em si: acho-o extraordinário, cinco estrelas, e aborda um tema de vital importância, que é o das gigantescas conseqüências que a manipulação da mídia pode gerar sobre a sociedade e sobre o indivíduo que cria tal manipulação.

O filme, dado o seu espírito ousado e perturbador, acabou não levando o Oscar. Levou o de melhor roteiro, incontestavelmente o melhor roteiro já escrito para o cinema até aquele momento. Complementarmente, "Cidadão Kane" faz uso de flashbacks, sombras, tem longas seqüências sem cortes, mostra tomadas de baixo para cima, distorce imagens para aumentar a carga dramática, algo tecnicamente revolucionário para a época. Tudo isto certamente cegava as produções concorrentes, mas mesmo assim não garantiu a estatueta nua, o que mostra que o Oscar desde então já havia se tornado um prêmio no mínimo desconfiável.

O roteiro, co-escrito por Orson Welles, é magnífico e conta a história de um menino pobre, mas ambicioso, Charles Kane, que abandona os pais para se tornar filho adotivo de um banqueiro milionário. Na maioridade herda os negócios do "pai"e decide se embrenhar num dos menos rentáveis, que é um jornal sem muita fama. Por meio de diversas manobras agressivas e populistas consegue transformar seu veículo de comunicação no mais influente e no mais manipulado. Por conseqüência Kane percebe que tem o "mundo a seus pés" e decide usar isto para entrar com força na cena política. O personagem central vai, aos poucos, perdendo suas virtudes. Pode ser visto retrospectivamente como alguém amargo, sombrio, arrogante, manipulador, cruel e impiedoso. Sua trajetória, no entanto, encerra muito do sonho americano: idealismo, espírito de iniciativa, fama, dinheiro, poder, mulheres, imortalidade.

Também, a trajetória de Kane foi comparada a partir de então com a de muitos políticos e empresários da imprensa. O Brasil teve um verdadeiro cidadão Kane em Assis Chateaubriand. Coisa mais recente, a BBC de Londres faz a comparação entre Kane e Roberto Marinho, falecido dono da Rede Globo. O documentário é conhecido como "Além do Cidadão Kane". Foi produzido em 1993, motivado pela vitória de Fernando Collor em 1989, quando ganhou as eleições para presidente após uma manipulação maciça engendrada pela Rede Globo. Nunca tal documentário foi veiculado na televisão brasileira: foi proibido judicialmente. No entanto, aqui temos nós os dourados dias de internet. E abaixo repasso para vocês o documentário na íntegra.

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