sexta-feira, 30 de abril de 2010

O ciclo sem fim do sertanejo universitário

Moro perto de um clube e todo fim de semana tem uma festa.

Em todas as festas as músicas praticamente são as mesmas: começam com "Whisky a Gogo", sucesso dos anos 1980, depois começam a tocar sertanejo universitário, tocam umas três de Ivete Zangalo, depois voltam para o sertanejo universitário, depois tocam umas duas do Calypso, depois voltam para o sertanejo universitário, depois tocam o créu e o rebolation e depois sertanejo universitário.

Ok. Vamos então fazer uma homenagem ao sertanejo universitário, música tão rica e sofisticada. Abaixo a letra de uma música clássica do sertanejo universitário.

A marvada pinga
Marco e Mário

Água de cana, alma de satanás,
Setenta capeta não faz o que a pinga faz,
Desce pinga o buraco sem fim,
E que não encontre "fígu" nem rim,
Aceita "estâmu", que é leite.

A "marvada" pinga que corre nas veia,
Dissolve as tripa, sapeca o "estâmu"
E dizima as lumbriga
E nesse ponto até que é bão
Mas tirando esse ponto a coisa é feia
Deixa a cara inchada e "vermeia"
Faz o homem dormir na escada da igreja
E não deixa ele entrar de vergonha.

(Então por quê que "ocê" bebe sô?)

É que a Zenaide me largou
Não esqueço do cheiro e nem do sabor
Não esqueço o dia em que tudo começou
E pra parar com isso eu mergulho na pinga
Desse jeito que eu tô não vai sobrar mais nada
Pra contar história
E o pior é que eu acho que é isso que eu quero,
Eu troquei a Zenaide por pinga

O grande anel de fogo solar


A imagem acima é impressionante. Foi tirada pelo Observatório de Dinâmica Solar (ou SDO como é mais conhecido) no dia 30 de março e mostra um anel de plasma onde provavelmente devam caber alguns planetas Terras dentro. Esse anel é direcionado pelas linhas de campo magnético no sol e impulsionado por explosões solares.

O SDO está dentro de uma sonda espacial e será extremamente útil para entender o que a astrofísica pode proporcionar ao clima terrestre.

Além do conhecido efeito estufa (fenômeno intrínseco ao nosso planeta), as explosões solares são determinantes para compreender o clima na Terra, já que a atividade solar pode conduzir a uma maior incidência de radiação no nosso planeta.

As imagens produzidas pelo SDO terão nitidez 10 vezes maior que uma tv de alta definição.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Não sei por que, mas passei a semana pensando na Pathetica

Sem mais palavras, abaixo os três movimentos da Sonata Pathétique para piano de Beethoven. Os forti e os piani são intensos demais para um bebê chorão (principalmente o pianissimo do 2. movimento onde coloquei em high definition). Tocados por Daniel Barenboim. Veja dois posts atrás para saber mais sobre este pianista e maestro.





domingo, 18 de abril de 2010

Lady Gaga ou Perelman: quem você realmente acha que é importante?

Não tenho nada a acrescentar. Vejam abaixo:

O russo esquisito que resolveu um dos sete mistérios da matemática tem muito a ensinar

Por Elio Gaspari


Em 2008, quando Lady Gaga gravou seu primeiro álbum, já se tinham passados seis anos do dia em que Grigori Perelman (foto) resolvera a Conjectura de Poincaré, um dos maiores mistérios da matemática. Num mundo que consome celebridades, a história de Perelman merece cinco minutos de atenção.

Ele é um matemático russo, de 43 anos, já passou meses sem trocar de roupa, raramente corta as unhas, a barba ou o cabelo. Vive com a mãe em São Petersburgo, tem horror a jornalistas e viveu sete anos praticamente recluso. Nem e-mails respondia. Quando esteve nos Estados Unidos, a base de sua alimentação era pão preto e iogurte.

Recusou cátedras nas universidades de Princeton, Berkeley, Stanford e no MIT. É um excêntrico, mas é um excêntrico que tem bastante a ensinar. Até que ponto vive-se melhor parecendo maluco do que deixando-se bafejar pela celebridade?

Superando ciúmes, intrigas e rivalidades, Perelman acaba de conquistar o prêmio dos "Problemas do Milênio", com direito a um cheque de US$ 1 milhão, concedido por uma fundação americana, por ter decifrado um dos sete grandes mistérios da matemática. Em 2006, ofereceram-lhe um honraria considerada equivalente a um Nobel de matemática. Recusou-a.

Para os leigos (como o signatário), a Conjectura de Poincaré é algo incompreensível. Ainda assim, pode-se perceber que Poincaré, um matemático francês que morreu em 1912, deixou para o mundo uma conjectura. Mais difícil será entender o que significa o segundo mistério: "A existência de Yang-Mills e a falha na massa".

Perelman resolveu a conjectura em 2002. Em vez de mandar seu trabalho para uma revista científica, onde um painel de estudiosos estudaria a consistência dos argumentos, simplesmente jogou os textos na internet, num arquivo público de trabalhos acadêmicos. O trabalho não dizia que a conjectura havia sido resolvida, essa tarefa cabia a quem o lesse. (Um matemático gastou três meses para entendê-lo.) A comunidade dos sábios consumiu dois anos estudando, invejando e, em alguns casos, buscando uma falha na explicação. Perda de tempo.

Quando Perelman foi convidado por Princeton, pediram-lhe um currículo. Respondeu que, se não sabiam quem ele era, não deveriam convidá-lo. Como o MIT chamou-o depois que resolveu a Conjectura de Poincaré, recusou porque deveriam tê-lo chamado antes. Num último convite podia ganhar quanto quisesse e fazer o que quisesse durante o tempo que bem entendesse. Respondeu que estava comprometido com seus alunos do ensino médio de São Petersburgo, o que nem era verdade.

Perelman ofendeu-se quando o "New York Times" disse que ele sustentava que resolvera a conjectura para ganhar US$ 1 milhão. Afinal, estudava o problema muito antes de o prêmio surgir e não sustentava coisa alguma. Decifrara a Conjectura de Poincaré, ponto.

Perelman é um matemático excêntrico e, pensando-se bem, Lady Gaga é uma roqueira quase convencional. Assim as coisas ficam fáceis e pode-se ir em paz ao próximo show. Contudo o mundo fica mais interessante quando se sabe que o negócio de Perelman é outro. Os matemáticos podem viver num mundo de liberdade e rigor absolutos. Ele escolheu uma vida de total integridade, sem concessões a coisa alguma. Ninguém manda nele, só a matemática, num diálogo que dispensa outras vozes.

Fonte: Folha de S. Paulo

domingo, 11 de abril de 2010

Daniel Barenboim e os concertos de Beethoven

Nossa, fazia um bom tempo que eu não sentava para ouvir um dos meus DVDs concertantes. Há até algumas óperas que tenho que assistir. E sempre agradecerei até o fim da vida a Cláudio Barreto por me disponibilizar tantos DVDs (entre eles o I Pagliacci de altíssima qualidade produzido por Zeffirelli).

Neste domingo pela manhã, depois de correr e treinar um pouco minha Border Collie, tomar um belo café da manhã com a esposa, conversar sobre a infância e boas lembranças e ajeitar uma coisa ou outra da casa, me sentei e coloquei por fim um DVD que comprei recentemente da EuroArts:

Beethoven Piano Concertos 1.2.3.4.5 Daniel Barenboim

Barenboim, além de excelente maestro, é excelente pianista e conduz a orquestra Staatskapelle Berlin no Festival de Ruhr com segurança e tranquilidade raras em concertos ao vivo.

Como ser humano, Barenboim, que antes eu imaginava que fosse um Judeu-Alemão e hoje sei que é um Judeu-Argentino-Espanhol-Alemão, já é alguém distinto. Para ilustrar tal distinção, veja o primeiro parágrafo da descrição de sua biografia na Wikipedia:

Daniel Barenboim (15 de Novembro de 1942) é um pianista e maestro argentino. Ele vive em Berlim e possui cidadania na Argentina, Israelita e Espanhola. Começou sua carreira como pianista, mas hoje é mais reconhecido como maestro. Ele é conhecido pelo seu trabalho com a West-Eastern Divan Orchestra, uma orquestra de jovens músicos árabes e judeus, que ele co-fundou com o falecido Edward Said (que ele chama de seu melhor amigo).

O interessante é que Edward Said foi um Árabe-Americano Cristão. E as fusões étnicas feitas por Bareboim-Said são exemplos notáveis do que eu chamo de cultura de paz e ressurreição da vanguarda árabe-judaica na Espanha dos séculos 12-14 d.C.

Já sobre o DVD, o início do Concerto n. 4 é tão bem desenvolvido e executado com tanta força e emoção que fizeram coisa rara: roubaram lágrimas de meus olhos críticos.

O maestro e pianista organiza a orquestra inserindo o naipe de violas na extrema direita seguido em sentido anti-horário do naipe de violoncelos. O naipe de contrabaixos é colocado na extrema esquerda no fundo do palco, por trás dos naipes de violinos, onde em geral fica o naipe de trompas. O de trompas foi deslocado para a direita, ao lado das madeiras (especificamente à direita dos fagotes). Tal disponibilização deu um efeito mágico na sonoridade orquestral. Sem falar que essa orquestra é realmente muito boa.

Todos os concertos para piano de Beethoven são fantásticos (mesmo o primeiro que é bem Haydiniano), com destaques para os n. 4 e 5, de força impressionante, com temas delicados que passam de um piano singelo e singular para um forte corajoso e encorpado.

Sem dúvida, o DVD merece 5 estrelas. E para divulgá-lo, aí vai o início do concerto n. 4:

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Curitiba vence prêmio global de cidades sustentáveis

07/04/2010 - 17h31
Curitiba - A cidade de Curitiba foi escolhida para receber o prêmio Globe Award Sustainable City 2010, ofertado pelo Globe Forum, entidade sueca que reúne empreendedores preocupados com a sustentabilidade global. "É uma vencedora muito sólida, com um plano holístico que integra todos os recursos estratégicos conectados com inovação e sustentabilidade futura", disse o presidente do comitê de jurados do Globe Award, Jan Sturesson, ao anunciar a escolha hoje. A entrega será em 29 de abril no Museu Nórdico de Estocolmo, com a presença do prefeito Luciano Ducci (PSB).

A capital paranaense disputava o prêmio com Sidney, na Austrália; Malmö, na Suécia; Múrcia, na Espanha; Songpa, na Coreia do Sul; e Stargard Szczecinski, na Polônia. Curitiba foi escolhida por unanimidade pelo comitê, do qual faz parte o diretor de Relações Internacionais da Fundação Dom Cabral, Carlos Arruda.

A nota do Globe Forum destacou que "particularmente, a abordagem holística com que a cidade encarou os desafios da sustentabilidade é bem delineada e gerenciada numa clara demonstração de forte e saudável participação da comunidade e integração da dimensão ambiental com as dimensões intelectual, cultural, econômica e social". O principal programa apresentado por Curitiba foi o Biocidade, que condiciona todas as ações do município à questão ambiental.

Uma política que começou há anos e não sofreu descontinuidade. Em razão disso, Curitiba tem hoje média superior a 50 metros quadrados de área verde por habitante. De acordo com o secretário municipal do Meio Ambiente, José Antonio Andreguetto, a preservação é possível em Curitiba em razão do planejamento urbano de longo prazo, da prioridade para criação de parques, de políticas de educação ambiental e de políticas de incentivo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Melhor frase da semana

Muita gente pode interpretar mal a frase seguinte, mas ela tem um sentido político profundo que vai além do que é o bem e o mal.

"Lula é o Príncipe de Maquiavel."

(Lucas Pedron)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Relíquias, sudário e paixão de Jesus

Muita gente se pergunta: por que esse nome "Paixão de Cristo"? Como assim "paixão"? Jesus tinha paixão por algo?

O termo "paixão" no contexto cristão provém do latim passio que é uma aproximação para o termo grego, contido nas versões originais dos evangelhos, pascho.

Pascho em grego quer dizer agonia. Ou seja, a expressão "paixão de Cristo" significaria assim "agonia de Cristo" e nada tem a ver com a paixão no seu sentido amoroso ou erótico como é mais comumente empregado nos dias de hoje.

Durante a época da páscoa, que também é época de paixão de Cristo, sempre vemos novidades nas capas das revistas. A Veja afirma a descoberta de uma novidade sobre Jesus, a Isto É vem buscando respostas para o tema de se Jesus tinha irmãos ou não e por aí vai.

Especificamente, a badalação agora vem da imagem em 3D que fizeram do rosto do homem do (santo) sudário. Existe uma grande polêmica se o homem do (santo) sudário seria mesmo Jesus. Sabe-se que uma pessoa que foi crucificada esteve realmente envolta no sudário (um pedaço de pano de linho). No entanto, na época de Jesus pessoas morriam crucificadas todos os dias e só no cerco romano de Tito (67-70 d.C.) milhares foram crucificadas (e em todas as posições que um ser humano é capaz de imaginar). Logo, dizer que o sudário pertenceu a Jesus é uma afirmação tão forte quanto dizer que a ponta de um cigarro antigo encontrado em Bervely Hills foi fumada por Marylin Moroe.

O jogo das chamadas relíquias sagradas foi o que moveu a fé durante toda a idade média. O ser humano sempre necessitou de objetos materiais para alimentar a sua religião. Só para se ter uma ideia, a mãe do imperador Constantino, até hoje considerada santa, logo após se converter ao cristianismo viajou a Jerusalém (pelos idos de 320 d.C.) e trouxe de lá um pedaço de madeira ao que ela afirmou ser um pedaço da cruz de Cristo. E esse pedaço de madeira foi reverenciado por séculos como um pedaço mesmo da cruz de Jesus.

Jesus foi transformado e continuamente tem sido tratado como ícone e mito. Por isso, tudo o que ouvirmos falar dele de forma exaltada sempre será no mínimo suspeito. Ao contrário do que muitas vezes pregado nos cultos, o Jesus real que é mostrado nos evangelhos é o Jesus simples, desapegado de símbolos materiais e ao mesmo tempo altamente crítico das leis de sua época (na sociedade onde vivia). Por exemplo, quando ele curou uma pessoa num sábado: para a lei judaica vigente isso seria tão impactante quanto uma pessoa andar nua na rua nos dias de hoje. No entanto, o interessante é que Jesus nunca afrontava a lei se não fosse por motivos humanistas (ajudar alguém, curar, ensinar, etc).

Atualmente todos se preocupam com a agonia, paixão de Cristo muito mais do que com aquilo que ele exemplificou ou ensinou. A principal festa da igreja católica sem dúvida é aquela que lembra a crucificação e o principal mote das igrejas evangélicas ou reformadas é o de que "o sangue de Jesus salva".

Este tipo de bitolação é que me faz crer cada vez mais que se Jesus voltasse hoje ele receberia tratamento parecido ao dado em sua época. Além disso, se houvesse uma máquina do tempo, e as pessoas das igrejas pudessem ver como foi realmente Jesus, no dia seguinte o cristianismo seria uma das menores religiões do mundo. Não porque Jesus seria visto como um perdedor, mas sim porque a profundidade de sua palavra chocaria demais a mente de uma sociedade dita cristã mas cuja religião real tem mais a ver com a perseguição aos valores aparentes encontrados nas vitrines de shoppings centers do que essências éticas encontradas no coração humano.