terça-feira, 20 de julho de 2010

A idiotização crônica da cultura brasileira

Ontem, ao assistir ao CQC da Band TV, percebi algumas verdades dolorosas sobre a cultura brasileira, satirizadas pelo ótimo apresentador Rafinha Bastos.

Após apresentar o grupo Parangolé no quadro "Top Five", Marcelo Tas anuncia um quiz com Caetano Veloso. E Rafinha Bastos retruca: "Agora a audiência vai cair; pra audiência subir coloca aí de novo o Parangolé".

Tudo isso coincide com o resultado do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), mostrando mais uma vez o sucateamento das escolas públicas brasileiras. Um sucateamento que inclui não só o descaso com o conhecimento das disciplinas básicas, mas também a total idiotização da cultura dentro das salas de aula: ninguém aprende sobre mestres da pintura, da música, das ciências... A figura do professor se transformou na figura de um palhaço sem graça. Nos corredores, provavelmente, só se fala nos falsos mestres do futebol e na idiotice que é a Lady Gaga. Ah sim, certamente devem falar muito sobre novos modelos de automóveis, como o Punto, que tem a propaganda mais idiota jamais feita (uma menina fugindo do pai pela janela para andar de Fiat Punto 2011 com o namorado; em que época estamos mesmo? Idade Média?).

Tudo isso também coincide com as novas novelas da Globo. Novelas que assumem que o mundo é feito de modelos, empresários milionários e viagens à Itália de fácil acesso, afinal de contas, como diria Fernando Vanucci, a Itália é logo ali.

Você já viu algum cientista, algum poeta, algum músico erudito nas novelas da Globo? Se algum dia houve, foram ridicularizados como aquele ser com o "parafuso faltando".

Para completar, a minha querida amiga Flávia me manda um email com a entrevista de um físico chinês, Professor da USP. Vejam o que diz a entrevista (Folha S.Paulo, 19/07/2010):

"Guo Qiang Hai, 48, físico chinês que mora em São Carlos (SP) desde 1993, veio para o Brasil sem conhecer ninguém, atrás de uma bolsa na Universidade Federal de São Carlos. Desde 2003 é professor da USP. Adora o país, mas está preocupado. Tem uma filha de um ano com uma brasileira e acha que as escolas que ela vai frequentar não são tão boas quanto as chinesas.

'Na China a escola é em tempo integral, o aluno sempre volta com tarefa. Se precisar, ele estuda no sábado. Além de o professor chinês ganhar bem, os alunos respeitam. Existe uma cultura que valoriza o conhecimento. Aqui não é bem assim. Na TV, parece que só se admira quem participou do Big Brother, tem dinheiro, é modelo. A sociedade não põe na cabeça das crianças que elas têm de estudar.'"

É meu caro Rafinha Bastos, para tirar o Parangolé da cabeça vai demorar muito. Enquanto isso, será que teremos que nos fiar na Copa 2014 se quisermos ver alguma melhora no nosso país em termos de educação e também infraestrutura? É muito doloroso pensar que as coisas aqui só funcionam quando tem futebol no meio...

Não dá para torcer contra a Copa de 2014. Seria um contra-senso.

No entanto, por outro lado, para quebrar um pouco esse meu clima pessimista, sempre é possível torcer a favor de projetos que nada tem a ver com Copa ou governos e são esperanças efetivas para uma melhora na cultura. Ajudem a completar a lista:

1) João Carlos Martins e a Orquestra Bachiana Jovem

2) Cussy de Almeida e a Orquestra do Coque

3) Ana Maria Gonçalves e suas oficinas de leitura

4) Zilda Arns - seus projetos e ações pela sobrevivência, desenvolvimento e proteção de crianças e adolescentes frente à Pastoral da Criança. Foi em Florestópolis, no Paraná, que Zilda levou a primeira ação da Pastoral. Na localidade o índice de mortalidade chegava a 127 mortes a cada mil crianças. Depois de um ano de acompanhamento, o número caiu para 28. O resultado incentivou a Igreja a expandir a Pastoral para todos os Estados do país. Hoje, estima-se que sejam atendidas, mensalmente, cerca de 2 milhões de crianças e 80 mil gestantes. (Comentário de Flávia)

Um comentário:

  1. 4) Zilda Arns - seus projetos e ações pela sobrevivência, desenvolvimento e proteção de crianças e adolescentes frente à Pastoral da Criança. Foi em Florestópolis, no Paraná, que Zilda levou a primeira ação da Pastoral. Na localidade o índice de mortalidade chegava a 127 mortes a cada mil crianças. Depois de um ano de acompanhamento, o número caiu para 28. O resultado incentivou a Igreja a expandir a Pastoral para todos os Estados do país. Hoje, estima-se que sejam atendidas, mensalmente, cerca de 2 milhões de crianças e 80 mil gestantes.

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