quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As fortalezas indômitas da capital paulistana

Quando eu era mais jovem fui a uma palestra de um padre. Na verdade um frei. Frei Betto.

Numa das partes mais interessantes da preleção ele dizia: "Na idade média, uma cidade tinha reconhecimento caso possuísse uma catedral. Hoje, uma cidade é reconhecida caso possua um shopping center".

São Paulo que não para de crescer... diz a musiquinha. E São Paulo que não para de construir shopping centers.

No fim de semana fui a um. Um dos mais novos shoppings. "Shopping Cidade Jardim". Não porque eu goste. Tem relação com aquilo que Sócrates uma vez disse sobre os mercados gregos: "Costumo ir ao mercado de Atenas não por gostar, mas para ver como são numerosas as coisas de que não preciso".

O Shopping Cidade Jardim é uma fortaleza da alta sociedade paulistana. O que esperar de um shopping que tem uma loja Daslu entre seus muros?

A arquitetura e paisagismo são excepcionais: árvores e jardins internos, com luz solar penetrando por espaços abertos.

E todos, absolutamente todos, não olham para as árvores, pois, claro, estão muito ocupados em observar vitrines e as roupas que você está vestindo. Se você tem uma manchinha de gordura do tamanho de um grão de mostarda, logo uma risadinha de ironia vem à tona. E claro, se a sua camisa não é Lacoste você será condenado ao inferno desta religião chamada "capitalismo elitista".

Logicamente que enquanto eu caminhava pelos corredores riquíssimos do tal "Cidade Jardim", ouvia no meu fone de ouvido e também cantarolava baixinho, uma ária da ópera "Il Trovatore" de Verdi. Música que a elite gosta de ouvir, eu admito. Mas se a música está invisível dentro da sua cabeça e a sua camisa não é Lacoste, irei para o inferno mesmo assim.

No Shopping Cidade Jardim não existem portões para clientes que cheguem a pé. Não existe porta de saída naquele lugar. Perguntei para o guarda: "com é que eu saio deste shopping?", ao que ele me respondeu: "pegue o seu carro no estacionamento e suba até a saída mais próxima".

Carro? É preciso ter um carro para sair daquele shopping!

O primeiro piso é interessante: cheguei com um táxi que me entrou no estacionamento e subi por um elevador dando de cara com uma loja da Rolex, seguida por uma loja da H. Stern, por outra da Montblanc, Juliana Scarpa, Grifith, Ara Vartanian, etc, etc, etc. Se nas catedrais medievais o altar era feito de ouro, nada mudou nas catedrais de nosso mundo moderno.

Como eu saí do shopping? Esse é um segredo que só contarei pessoalmente para algumas pessoas privilegiadas que ouvirão a narração do fabuloso escape de Carolus Jones da pirâmide incomensurável de Montezuma com frontispício latino "non ducor duco".

Non ducor duco...

2 comentários:

  1. " [...] Quando eu te encarei frente a frente eu não vi o meu rosto, chamei de mal gosto o que vi, de mal gosto, mal gosto; é que Narciso acha feio o que não é espelho [...] por que és o avesso do avesso do avesso do avesso".

    ResponderExcluir
  2. Nossa, Jaina!
    Muito bem lembrado! Não descrição poética mais bem sucedida para descrever "Sampa". ;)

    E esse shopping Cidade Jardim é literalmente "a força da grana que ergue e destroi coisas belas".

    ResponderExcluir