quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Reflexões sobre nordestinos...

E ela tuitou: "Nordestino [sic] não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado".

Já morei nos quatro cantos desse país. E posso dizer que compreendo alguns aspectos desse ódio insano pelos nordestinos.

Porque eu sou um nordestino. Pernambucano, nascido em Recife, criado nos Aflitos. Criança que foi morar em São Paulo e conviveu diariamente com insultos de crianças paulistanas do tipo "seu baiano sujo!".

É um ódio que vem de baixo: São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Vem se alastrando também pelo Centro-Oeste.

Mas por quê?

A explicação é simples: em geral os patrões menosprezam os empregados. E os nordestinos, e também os mineiros (que no Paraná são simplesmente chamados de "nortistas"), sempre foram vistos pelo sulista "patrão" como o "empregado" preguiçoso. Além de preguiçoso, fala errado, é mal-educado, sujo, pobre e além disso VOTA ERRADO.

Só que o sulista e o paulista são tão brasileiros quanto os nordestinos e os mineiros.

Uma vez fui para os Estados Unidos com um grupo de São Paulo. E lá os americanos não diferenciam se você é nordestino ou sulista. Lá brasileiro de São Paulo é tão achincalhado quanto um baiano, e de forma ainda pior, pois brasileiro é um "sub-empregado preguiçoso" e além de tudo "ladrão".

Vou ser sincero: no sul e no sudeste vi pessoas mais empreendedoras que nordestinos na área dos negócios e das corporações. Tiro o meu chapéu e amo e aprendo muito convivendo com as pessoas do sul. Eles sabem o quanto eu os amo.

No nordeste, no entanto, vejo pessoas mais empreendedoras que sulistas na área cultural e artística. A cultura nordestina pisoteia e massacra sem dó qualquer expressão da cultura do sul/sudeste, que hoje infelizmente acabou se transformando em frankstein da cultura de massa norte-americana (vide o "sertanejo universitário" que sinceramente não sei porque tem esse nome ridículo).

Isso ocorre porque o nordestino tem uma capacidade criativa enorme. O que conduz a outros resultados expressivos em áreas como a informática.

Em Recife, por exemplo, existe um polo chamado "Porto Digital". Ali se desenvolvem os melhores softwares feitos em solo brasileiro.

Há um outro aspecto: em geral, quando não se sai do nicho onde se mora, tende-se a criar o bairrismo e um patético "orgulho da raça". Uma piada de mal gosto, onde o caboclo acaba acreditando na lenda de que o seu povo é melhor que qualquer outro povo do universo.

O sulista chama o nordestino de burro. No entanto, faça a estatística, no sul se lê tão pouco quanto no nordeste. Ninguém lê nesse nosso país e quem leva a fama é o nordestino...

São diferenças culturais que não são tão diferentes assim. O ser humano, apesar de ser um animal social, criou a tola mania de ver separações entre regiões, nações e culturas. O ser humano é o único animal que acha que não é animal e portanto um ser separado da natureza que o cerca.

É por essas e outras que eu tenho a leve impressão de que se fosse permitido ao planeta Terra tuitar alguma coisa, seria algo assim: "Ser humano [sic] não é gente. Faça um favor à Terra: mate um ser humano afogado".

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