segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Música erudita: do barroco ao vanguardista

A pedidos, abaixo uma tentativa didática de expressar algumas nuances da evolução da música erudita ocidental. Uma pequena explicação com um vídeo do youtube. Claro que, como não sou músico profissional, as informações abaixo podem conter algum erro, que caso seja identificado, por favor, gostaria de ser informado.

1) Vou começar com um estilo atual. O chamado vanguardista. É um estilo para poucos, porque é muito confuso e experimental. A composição: Pierre Boulez (francês) compôs este exemplo de música vanguardista chamado "Notation n. 2".
http://www.youtube.com/watch?v=dyXGfztLEMA

2) No final do século 20 (anos 70, 80 e 90) o estilo minimalista ficou na "moda". Ele é muito simples, poucos instrumentos, pouca complexidade e bem redundante, mas agradável aos ouvidos e bem "goticular" eu diria, no sentido que parecem gotinhas caindo. A composição: o exemplo abaixo é do maior minimalista de todos os tempo, Phillip Glass (americano), com a composição "The Kiss".
http://www.youtube.com/watch?v=oGDx5D3sLz8

3) O neo-romantismo é um estilo do final do século 20 que retoma vários elementos musicais do século 19, onde a música é colocada numa escala épica (wagneriana e mahleriana), complexa e monumental. A maioria dos compositores de trilhas sonoras de filmes usam esse estilo porque é bastante emocional. A composição: "Ectasy of gold" de Ennio Morricone (italiano).
http://www.youtube.com/watch?v=ZNGe7iK1O-4

4) A música clássica dos meados do século 20 foi dominada por uma grande tensão por causa das guerras e das tensões sócio-políticas. Eu não sei como chamar esse estilo, mas acho que é o pós-moderno ou expressionista. Note como é estressante o violino. Composição: Dimitri Shostakovich (russo) em seu "Quarteto de cordas n. 8, 2. mov".
http://www.youtube.com/watch?v=PjvTTfbpWjY

5) A primeira metade do século 20 é dominada pelo estilo chamado "modernista". Os caras compunham de uma maneira altamente livre e alguns tinham preocupações nacionalistas, inserindo estilos indígenas, tribais e regionais nas composições. A libertação dos moldes tradicionais teve o apogeu no dodecafonismo de Schonberg. Composição: vou dar dois exemplos, um altamente nacionalista ["Trenzinho do caipira" de Heitor Villa-Lobos (brasileiro)] e um modernista puro do tipo Igor Stravinsky (russo) com a composição "Petrushka".
http://www.youtube.com/watch?v=DC8oFe5bkeY
http://www.youtube.com/watch?v=uFlXULEk32s

6) No final do século 19 e início do século 20 havia um estilo chamado "impressionismo", onde os compositores tentavam reproduzir impressões românticas sobre a natureza e o amor: chuva, mar, lago, vento, folhas, cabelos, narizes, etc. Aqui, já existe uma quebra com os padrões tradicionais. Os dois maiores representantes são Debussy e Ravel. Composição: um exemplo com três composições famosíssimas: "A garota com cabelos cor de linho", de Claude Debussy (francês), "Pavane para uma princesa morta" de Maurice Ravel (espanhol), e "Gymnospedie n. 1" de Eric Satie (francês).
http://www.youtube.com/watch?v=G4XgxduIv_0
http://www.youtube.com/watch?v=GKkeDqJBlK8
http://www.youtube.com/watch?v=S-Xm7s9eGxU

7) Romantismo wagneriano: é o romantismo ousado da segunda metade do século 19, com toques épicos, questionamento dos padrões tradicionais, grandiosidade, orquestras gigantescas, vozes humanas (utilizadas em óperas principalmente) e temas complexos sobre a psicologia humana travestidos de aventuras mitológicas. Composição: primeira cena do terceiro ato da ópera "A Valquíria", de Richard Wagner (alemão).
http://www.youtube.com/watch?v=1aKAH_t0aXA

8) Ópera italiana romântica da segunda metade do século 19: da mesma época que o romantismo do item anterior, só que com composições mais digeríveis e temas voltados para o dia a dia de pessoas comuns, com composições de pouca ousadia, mas de alto alcance romântico. Há muitos compositores que entram nesse contexto, como Puccini, Mascagni, Leoncavallo, Bizet, Verdi. Exemplo: um trecho da ópera "Tosca", de Giacomo Puccini (italiano), onde se canta a ária "E Lucevan le Stelle".
http://www.youtube.com/watch?v=hxdiJ74AL5Y

9) Romantismo germânico: utiliza como mote o legado de Beethoven, criando complexidade harmônica, sem quebrar com os padrões tradicionais e sem grandes aventuras emocionais. Bastante racional mas muito belo. Há alguns representantes como Brahms, Schumann, Schubert. Exemplo: de Joahannes Brahms (alemão), um trecho de sua "Sinfonia n. 1, mov. 4".
http://www.youtube.com/watch?v=fhHb-62BfpI

10) Romantismo francês da primeira metade do século 19: na verdade praticamente quem inaugurou o estilo não foi um francês e sim um polonês (Chopin), onde a música é praticamente um pano de fundo para o amor romântico. Entram aqui compositores como Berlioz, Chopin, Lizst, Mendelsohn, J. Strauss, etc. A orquestra começa a tocar com mais sonoridade, mas usa o estilo beethoviano como molde. Exemplo: "Sinfonia Fantástica, 2. mov" de Hector Berlioz (francês).
http://www.youtube.com/watch?v=s5HFufPG31g

11) Transição clássica, que é basicamente o estilo de Beethoven, do início do século 19, onde ele, apesar de nitidamente classicista, começa a valorizar a sonoridade, aumenta as orquestras, o que já é um indício do que há por vir, ou seja, o romantismo. Beethoven, apesar do tradicionalismo, quebrou algumas regras da música clássica. Exemplo: trecho da "Sinfonia n. 9, mov. 4" de Ludwig van Beethoven (alemão).
http://www.youtube.com/watch?v=Iq-3B6xfNpY

12) Classicismo: é um estilo altamente arredondado, sem espaços para muitas complexidades e de baixa sonoridade orquestral, com músicas bem delicadas, que se realimentam de um tema principal e suas variações. Nessa época (meados do século 18 ao final do século 18) se destacaram nesse estilo os seguintes compositores: Mozart, Salieri e Haydn. Vou dar dois exemplos: uma ópera de Wolfgang Amadeus Mozart (austríaco, o melhor compositor de óperas do mundo na época) e um concerto de Joseph Haydn (austríaco), que hoje é o hino da Alemanha. A ópera de Mozart é "Flauta Mágica" (ária da rainha da noite) e a composição de Haydn é o seu quarteto de cordas Imperador, mv 2.
http://www.youtube.com/watch?v=8GHSv8RLGlw
http://www.youtube.com/watch?v=7tHc9xWhFH4

13) Rococó: uma variação do barroco, com apelos para variações imprevisíveis e exageradas. Em geral são músicas bem alegrinhas. Ocorreu em meados do século 18. Exemplo: concerto grosso de Carl Philip Emmanuel Bach (alemão, que por acaso é o filho de Johann Sebastian).
http://www.youtube.com/watch?v=o5icRxgdfiU

14) Barroco tardio: é o virtuosismo do estilo barroco, com expressões altamente sóbrias e reverenciais. Há dois representantes principais: Bach e Handel. Exemplo: Concerto de Brandeburgo n. 3, mov 1 de Johann Sebastian Bach (alemão).
http://www.youtube.com/watch?v=hZ9qWpa2rIg

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Jauchzet, frohlocket, auf, preiset die Tage

E um próspero Ano Novo!

Próximo ano continuarei a espalhar ideias malucas, a falar de "las belas artes" e a contestar "las malas artes". Até daqui uns dias!



Música: Weihnachts Oratorium, Cantata 1, Johann Sebastian Bach
Interpretação: Concentus Musicus Wien, Direção: Nicolaus Harnoucourt

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Frase da semana

"A Justiça desse país, graças a Deus, é uma das coisas que funciona bem e com muita coragem."

Paulo Salim Maluf (após ser diplomado Deputado Federal e ser absolvido no processo do Ficha Limpa)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Coma menos arroz e beba mais Coca-Cola: eis a receita para virar um monstro

Em seis anos, o brasileiro passou a comer menos arroz e feijão e aumentou o consumo de refrigerante e cerveja em casa.

Segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 2002-2003 e 2008-2009, a quantidade média que cada brasileiro comia de arroz caiu 41%, indo de 24,6 quilos por ano para 14,6 quilos.

A média de feijão passou de 12,4 quilos por ano para 9,1 quilos (redução de 27%).

No sentido contrário, os refrigerantes de cola, principalmente a da marca Coca-Cola, tiveram seu consumo aumentado em 40%, passando de 9,1 quilos por ano para 12,7 quilos (a medida das bebidas está em quilos, e não em litros porque o IBGE fez a conversão para padronizar os valores da pesquisa).

Esse fenômeno não é exclusivo de nosso país. China, países europeus e Japão, no passado, deixaram de consumir seus alimentos locais, e saudáveis, para darem preferência a hamburguer e Coca-Cola.

Onde desde sempre se come dessa forma bizarra? Num lugar chamado EUA, provável besta do apocalipse (ainda estou fazendo meus cálculos para ver se o 666 coincide), e lugar onde as pessoas em geral são obesas e infelizes. O paraíso do consumo, onde o próximo passo é deixar de beber Coca-Cola rumo à Gasolina-Cola.

E tudo isso tem grande correlação com os interesses de poder do governo americano, claro. O WikiLeaks é a prova máxima de que tem alguma coisa errada e esses caubóis estão fazendo jogo de imperialismo cultural sim. Quem ainda não viu, que veja agora. Se você não conhece a história do projeto "New American Century", por favor, leia isso, que está longe de ser uma teoria da conspiração, pois existem trilhões de documentos acerca de planos baseados nas estratégias de Kagan, Rumsfeld, Bush e outros.

Nada contra o povo americano. Mas sou totalmente contra imperialismos culturais cuja demanda é substituir o nosso arroz com feijão de cada dia por uma merda qualquer chamada Coca-Cola.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fiança para Assange


A Corte de Westminster no Reino Unido estabeleceu uma fiança de 200 mil libras para soltar Julian Assange.

Ao menos dez celebridades britânicas haviam se prontificado a ajudar no pagamento de uma potencial fiança estabelecida pela corte, entre elas os cineastas Ken Loach e Michael Moore, a milionária Jemima Khan e o jornalista investigativo australiano John Pilger.

Segundo o jornal britânico "Guardian", uma amiga de Assange, a proprietária de restaurantes Sarah Saunders, assinou uma declaração oferecendo 150 mil libras, dizendo que era quase todo o patrimônio que possui.

Se eu tivesse uma fortuna de 160 mil libras, eu também ofereceria 150 mil libras para a fiança.

Graças ao WikiLeaks todos agora sabemos o que realmente é os EUA no Afeganistão e Iraque.

Todos agora sabemos que José Serra de fato iria entregar o petróleo brasileiro aos EUA.

Todos agora sabemos o que é Guantánamo.

Todos agora sabemos que falta muito para esse mundo ser de fato justo.

Mas agora sabemos que é preciso saber sobre certas coisas para abrirmos os olhos e boicotar quem deve ser boicotado nesse planeta. E então virá a justiça.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uol considera quais as 10 maiores realizações científicas da década


Cada portal tem os seus critérios para avaliar os maiores acontecimentos científicos da década. Em especial, o Uol considerou o rebaixamento de Plutão como o quinto maior acontecimento da década, por colocar em xeque critérios científicos antes considerados como inquestionáveis.

Fico bastante emocionado, nesse sentido, por ter participado ao vivo desse debate e da decisão, ocorridos em Praga em 2006.

Veja a lista completa do UOL em

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/retrospectiva-2010/index.jhtm

Orquestra sinfônica do youtube

Há quase dois meses postei uma reflexão sobre a vitória da liberdade cibernética sobre o velho sistema impositivo dos governos. Uma vitória ao menos temporária, que é abafada por tentativas de mordaça como a atual prisão de Julian Assange.

Veja o post aqui.

Um dos melhores exemplos dessa liberdade cibernética é a formação de uma orquestra online para tocar ao vivo para todo o mundo no Opera House de Sidney (Austrália) em março de 2011. Eu estou fascinado com a possibilidade de contribuir com a escolha de um músico para a orquestra (embora eu não seja gabaritado para o processo, fico mesmo assim fascinado de poder ouvir um clarinete e um oboé e dizer: 'ei! esse merece entrar na orquestra!').

Se você também quiser escolher alguém, pode entrar no site específico da votação. Lá verá diversos vídeos de pessoas tocando músicas com seus instrumentos e um botão para votar no candidato.

Aqui vai o site:

Votação para a Orquestra do Youtube

domingo, 12 de dezembro de 2010

Este blog se solidariza com Julian Assange, preso injustamente no Reino Unido. Liberdade para Assange! Longa vida ao WikiLeaks!

Julian Paul Assange (Townsville, 3 de julho de 1971) é um jornalista e ciberativista australiano. É um dos nove membros do conselho consultivo do Wikileaks, um wiki de denúncias e vazamento de informações. É também o principal porta-voz do website.

Assange estudou matemática e física, foi programador e hacker, antes de se tornar porta-voz e editor chefe do Wikileaks. Fundou o WikiLeaks em 2006 e atua em seu conselho consultivo. Esteve envolvido na publicações de documentos sobre execuções extrajudiciais no Quênia, e isso lhe garantiu o prêmio Amnesty International Media Award de 2009. Também publicou documentos sobre resíduos tóxicos na África, procedimentos do Guantánamo, e outros. Em 2010, ele publicou detalhes sobre o envolvimento dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque. E então em 28 de novembro do mesmo ano o Wikileaks e seus cinco parceiros de mídia, El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e The New York Times, começaram a publicar os telegramas secretos da diplomacia dos EUA. Por seu trabalho no Wikileaks ganhou outros prêmios, como o Sam Adams Award de 2010 e o Index on Censorship do The Economist em 2008.

Em 2010, após o vazamento da vasta massa de documentos sobre possíveis crimes de guerra cometidos na Guerra do Afeganistão e na Guerra do Iraque pelo exército americano, sua fama cresceu. Recentemente Assange perdeu a cidadania sueca e está à procura de um país que o receba. Em 30 de novembro, foi acusado de estupro e abuso sexual na Suécia. A Interpol o colocou em sua lista de procurados. No dia 7 de dezembro, em Londres, Assange apresentou-se à Polícia Metropolitana e negou as acusações contra ele. Atualmente está preso no Reino Unido, prestes a ser extraditado para a Suécia. Hackers do mundo inteiro, em protesto, pediram a liberdade de Assange, e caso este seja extraditado, prometeram invadir sumariamente todos os sítios do governo inglês.

Hey Bush... A era da verdadeira liberdade está chegando, ou WikiLeaks mostra como soldados americanos matam civis iraquianos

sábado, 11 de dezembro de 2010

Clube da Luta

Continuando a série "Cinema great scenes", aí vai uma que tem relação com duas grandes façanhas que ocorreram nesta semana. A primeira façanha: em retaliação à prisão (a meu ver injusta) do fundador do site WikiLeaks, os hackers simplesmente tiraram do ar os sites oficiais da Visa, do MasterCard e do PayPal. Tudo isso porque essas empresas se recusaram a transferir doações ao WikiLeaks. A segunda façanha: um dos maiores astros do Arsenal, time inglês, o já aposentado Eric Cantona (que estrelou o filme "Looking for Eric") conclamou que seus fãs fizessem a "revolução". Não é necessário pegar em armas, disse ele; basta sacar todo o seu dinheiro do banco.

Bem. Tudo isso é muito parecido com a apoteótica cena abaixo. Do filme "Clube da Luta" (1999), com atuações muito eficientes de Edward Norton e Brad Pitt. O protagonista decide que o melhor para o mundo era destruir os prédios onde se concentravam os bancos de dados das maiores empresas de cartão de crédito (que não é minha opinião, já que estou mais para a satyagraha de Gandhi). Mas o mais importante do filme é a competência em explorar os complexos de inferioridade do público masculino e colocá-los à mostra de maneira visceral. Notem a cena subliminar de um homem com genitália gigantesca, id est, o sonho de consumo do macho estadunidense.

Direção: David Fincher.



Quem hoje entrar no site do MasterCard verá a seguinte mensagem:

MasterCard has made significant progress in restoring full-service to its corporate website. Our core processing capabilities have not been compromised and cardholder account data has not been placed at risk. While we have seen limited interruption in some web-based services, cardholders can continue to use their cards for secure transactions globally.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cinema great scenes: Tokyo Monogatari (1953), "'Isn't life disappointing?' scene"

Direção: Yasujiro Ozu

Profunda história sobre o conflito entre gerações, a reflexão da vida no Japão pós-guerra e o sentido das relações de trabalho no novo paradigma japonês.

Cinema great scenes: Das Leben der Anderen (2006), "Sonata for a Good Man Scene"

Na cena, um espião da Stasi da Alemanha Oriental percebe o quão duro e patético é espionar a vida do homem mais sensível e ao mesmo tempo mais comunista que ele já conhecera. Destaque para o impacto da frase proferida por Georg, a personagem perseguida: "Você sabe o que Lenin disse sobre a 'Apassionata' de Beethoven? Ele disse: 'Se eu continuasse ouvindo isso, eu não conseguiria terminar a revolução.'". E completa o pensamento: "Pode alguém que ouve esse tipo de música, digo aquele que realmente a entende, ser uma má pessoa?".

Direção: Florian Henckel von Donnersmarck

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Cinema great scenes: Ben-Hur (1959) "Desert Trek Scene"

Direção: William Wyler, com magnífica trilha sonora do húngaro Miklós Rózsa. Robert Surtees assina a fotografia.

Atenção todos os carros!

Luiz, Hugo, Louquinho, Andreia, Manu, Daniel, Tourão e companhia limitada.

O sonho do nosso grandiosíssimo flashmob nas ruas de Barão Geraldo não acabou.
Aguardem...

A coisa vai pegar fogo.

Nos Estados Unidos há uma certa paranoia...

Reproduzido de texto de Mauro Santayana, no Jornal do Brasil, confirmando tudo aquilo que tenho dito sobre Mr. Lockheed Martin et al.

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WikiLeaks e a Paranoia Americana

Entre os documentos diplomáticos divulgados, há um, sobre o Brasil, que merece comentário especial. Os norte-americanos, ao analisarem nossa política estratégica, afirmam que há uma tradicional “paranoia” do Brasil com relação à Amazônia.

O vocábulo vem a calhar, como dizem nossos irmãos portugueses. Paranoia, segundo os especialistas, é uma visão paralela da realidade, uma deturpação mental, que pode designar personalidade reduzida e atormentada pelo medo, mas também identificar alguém que se julga em plano superior, como um titã, ou um deus. Se partirmos dessa definição científica, os Estados Unidos são exemplo clássico de nação paranoica.

O que é a grande virtude dos Estados Unidos, a colonização do território pelas puritanos ingleses, e sua obstinação pela liberdade, pode ser entendido, também, como fragilidade. O fundamentalismo protestante, que se expressou na perseguição às bruxas e na violência contra os pecadores, é também reconstituído por Nathaniel Hawthorne em A letra escarlate, e pela peça clássica de Arthur Miller The crucible (As feiticeiras de Salém).

Nessa obra, Miller faz inteligente ligação entre a intolerância ensandecida dos peregrinos e a “caça às bruxas” do macartismo dos anos 50. A paranóia americana se revela na oscilação entre o medo e a megalomania, que lhes serve como escudo contra o sentimento de perseguição de que padecem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Engula essa Mr Lockheed Martin. Engula e digira!

Por dentro do WikiLeaks

Por Natália Viana*

Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português. Todos os dias haverá no site matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.

Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.

Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.

Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.

Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.

Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.

Documentos sobre Brasil

No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.

Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.

O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo – espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical – também no jornalismo.

Impressões
A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial – e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.
Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo – da Austrália ao Irã – vai conseguir reduzir o choque.

Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram “como o mundo funciona”.

O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.

Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.

O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela “pode gerar insegurança” ou “atrapalhar o andamento das coisas”. A imprensa simplesmente não tem esse direito.

É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de “irresponsável”, “ativista”, “antiamericano” e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo – objetivo, equilibrado, responsável e imparcial.
Uma ironia e tanto.

*Natália Viana é jornalista e colaboradora do Opera Mundi