A árvore da vida (Terrence Malick) *****
Assim como hoje uma sinfonia de Brahms, daqui a 200 anos nossos tataranetos se lembrarão do poético filme de Terrence Malick como uma obra prima do século 21. Disto tenho certeza.
No entanto, leia-se, a obra prima que sobrevive, mas é por poucos apreciada. Não é o opus descartável das prateleiras de cds e dvds piratas.
O tema essencial do filme é: "Deus, onde você está?"
Esse é o suficiente para trazer à tona milhares de resultados visuais e a lembrança de que somos seres biológicos que jogam, que amam, que ensinam, que ouvem, que falam, que correm, que brincam, que observam, que choram.
Entremeado por obras musicais dos gênios de todos os tempos, de Bach tocado por Brad Pitt (que estrela e produz o filme) na igreja, a Smetana ressoando o rio Moldávia representando a correria e evolução de uma criança, o filme é um recorte de centenas de cenas do que vemos na vida real: nossos pensamentos, nossas emoções, nossas ações secretas, aquelas que escondemos para não cairmos no ridículo.
É impressionante como Malick encena os momentos do início da vida do universo, das estrelas, das galáxias e da Terra. Tudo parece incompreensível porque não há a preocupação com didatismos. O que se vê é o que aconteceu e portanto não há como explicar as cores de uma nebulosa planetária se você nunca leu algo sobre ela. Mas para o leigo no assunto, o colorido inexplicável deixa a impressão do universo que cresceu sem a nossa presença, presunção, interferência.
Fotografia impecável, roteiro livre sem sequência linear, direção de arte e cenografia de alto nível, e até mesmo alguns efeitos visuais interessantes (a cena do velociraptor que poupa sua presa é impressionante). Os atores (Brad Pitt, Sean Pean, Jessica Chastain, et al.) são extremamente eficientes em tornar os seus personagens tridimensionais: eles são personagens que falam, pensam e sentem e todos os personagens têm
o seu momento de destaque, principalmente as crianças.
Esse é um dos filmes que mais me impressionaram na vida. Apesar disto fico triste com a triste sina comercial do mesmo pois o é padrão de película a que as pessoas não estão acostumadas e provavelmente não conseguiriam digerir facilmente. Não que o filme seja pesado ou entediante, pois está longe disto. Ao contrário é um filme que explora a simplicidade dos fatos da vida. Os fatos belos e também aqueles entremeados de dissonâncias e conflitos entre pais, filhos ou entre irmãos de sangue. No entanto, a simplicidade da vida não é aquilo que as pessoas procuram com frequência, preferindo filmes recheados de tiros, bombas, efeitos visuais exagerados, roteiros obscenamente previsíveis e insossos.
Dificilmente levará o Oscar em 2012. No entanto, ganhar a Palma de Ouro em Cannes já é prêmio merecido e está mesmo aquém do alcance psicológico e cinematográfico da obra.
A profundidade chega mesmo nas entrelinhas. Sem ser direto, Malick consegue mostrar os absurdos de alguns comportamentos humanos ingênuos e ao mesmo tempo degradantes, como a cena em que um caminhão, nos anos 1960, dá um banho de DDT nas crianças que dançam sob a fumaça sem saberem o que DDT significa.
"Onde estás?"
A pergunta, que não quer calar, e surge em geral nos momentos mais difíceis, é comentada na forma mais poética que a sétima arte conseguiria conceber. A gama de questionamentos e perguntas filosóficas básicas tem o seu ápice na cena do Requiem de Berlioz, onde as máscaras caem e nos mostramos como verdadeiramente somos no nosso paraíso subjetivo. Sobre o requiem, Malick em "Além da Linha Vermelha" também trabalha com um Requiem, mas daquela vez com o de outro francês (Fauré).
Filme para poucos, mas como uma sinfonia de Beethoven, um estudo de Chopin, uma ópera de Wagner, um teclado bem temperado de Bach, uma pintura de van Gogh, uma escultura de Rodin, uma peça de Shakespeare, arquiteturas do mestre desconhecido gótico ao curvilíneo de Niemayer, é película que fica na memória daquele que se coloca à disposição para apreciar, por um momento que seja, a arte pura no seu estado da arte.
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