domingo, 9 de março de 2014

Rotten Tomatoes, o portal dos EUA de críticas cinematográficas patrióticas

Há anos venho lendo as criticas e resenhas publicadas no Rotten Tomatoes (RT) como uma referência sobre quais filmes levar em conta na hora de sair para o cinema.

Para quem não sabe, o RT é um portal dos EUA aberto a críticos de vários jornais e revistas especializados na 7a. arte. O site: www.rottentomatoes.com.

Vale ressaltar, e isso será importante no entendimento de tudo que abaixo colocarei, que 99% dos jornais acima mencionados são publicados em solo norte-americano.

E como funciona o Rotten Tomatoes? Sintetizando ao máximo, o portal é dotado de uma escala chamada "tomatômetro". A escala é construída com base na percentagem de críticos que gostaram do filme. Assim, tomando um exemplo real, "Cidadão Kane" (1941) foi resenhado por 66 críticos de cinema estadunidenses (em sua maioria). Todos eles gostaram do filme (deram-lhe um tomate fresco). Assim, o tomatômetro indica 100% (ou cinco estrelas). Já o filme "Norbit" (2007), tomando um outro exemplo, recebeu 123 resenhas. Destas, apenas 11 foram favoráveis (tomate fresco) e 112 desfavoráveis (tomate podre). Portanto, "Norbit", no Rotten Tomatoes, é um filme "podre", com tomatômetro indicativo de 9%. Como observação, um filme é considerado "podre" sempre que está abaixo dos RT 60%. 

Dito isso, vamos ao objetivo principal da postagem:

Hoje finalmente encaixei todas as peças do quebra-cabeça e concluí o que para muitos já seria o óbvio: o Rotten Tomatoes de fato é um dado viciado.

Como assim um dado viciado?

A resposta é que ele é um portal que possui críticos bem patrióticos.

Deixem-me explicar melhor, se me permitem.

Há que se dizer que um filme bom e politicamente neutro é sempre bem recompensado no portal, isso é um fato. Por isso, nunca deixarei de observar as resenhas quando eu puder.

No entanto, um bom filme que tenha características de crítica ácida explícita aos Estados Unidos e à sua sociedade nunca é bem recebido no RT. E tenho que enfatizar o "explícita", pois, algumas vezes, quando o filme é bom, mas possui críticas ao país que sejam veladas ou pouco perceptíveis, como é o caso do ótimo "Margin Call" (2011, RT 88%), muitos críticos abençoam a produção com pouquíssimas reservas.

Se o filme, porém, é bom mas ácido, o caso se transforma. É o que ocorre, por exemplo, com o último "Robocop" (2014), dirigido por José Padilha. Na última cena do filme (isso não é bem um spoiler) vê-se Samuel L. Jackson a exclamar algo como (uma ironia do diretor): "Os Estados Unidos da América é o único país bom do mundo!" Continuamente, durante a projeção, as ironias ácidas são esguichadas e o resultado invariável é que a bilheteria nos EUA foi péssima. Para um filme que teoricamente é um block buster.

E no RT, como foi a recepção? Também péssima. Por mais que a direção seja ótima, e a atuação média seja boa, sem contar os créditos para as demais características técnicas, "Robocop", que começou com um RT de uns 80%, agora tem um RT de 49%. Ou seja, ele é considerado um filme "podre". E a desculpa dos muitos críticos que ultimamente têm rechaçado a obra é que o filme não foi capaz de superar o "Robocop" original de 1987. É isso o que li na maioria dos 93 "tomates podres" emitidos. 

E há um contraexemplo? Um filme ruim que seja ovacionado por ser patriótico?

Já lhes digo: "Walt nos Bastidores de Mary Poppins" (Saving Mr. Banks, 2013). Uma produção horrível, repleta de clichês e atuações paupérrimas, sem falar na trilha sonora piegas. Entretanto, o filme está recheado de louvores a Walt Disney e exalta eficientemente todas as virtudes dos Estados Unidos da América.

Recepção no Rotten Tomatoes: 80%. Eu disse "80%"! E o mesmo ocorre para filmes como "Um Sonho Possível", do mesmo diretor de "Walt nos Bastidores" (J. L. Hancock): filme ruim, exaltador dos EUA, e, inevitavelmente, com 88% no RT.

Um dado viciado, sem dúvida. É o que de fato podemos concluir...

Mas o que esperar dos críticos de uma nação que mistura qualquer decisão séria com o peso do sentimentalismo patriótico?


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