sábado, 11 de fevereiro de 2017

"Do androids dream of electric sheep?" ou "Androides sonham com ovelhas elétricas"?

Escrito por Philip K. Dick. Humor cáustico do início ao fim.

Sobre um futuro em que terráqueos não podem viver na Terra - o planeta foi devastado em uma guerra apocalíptica e agora é somente uma bola de poeira sem vida. A maioria dos humanos já migrou para Marte ou outros sistemas e quem ficou na Terra sobrevive à base do Mercerismo (uma religião artificial) e da nostalgia pelos animais extintos, agora substituídos por cópias cibernéticas.


O personagem central é Rick Deckard. Assim como todas as pessoas, sua principal ambição é ter um animal de estimação verdadeiro. Enquanto não pode, ele cuida de uma ovelha elétrica. Tudo indica que ele a ama mais do que a própria esposa.

Deckard é caçador de recompensas da polícia de São Francisco. Sua principal atividade: "aposentar" androides fugitivos. Androides são proibidos de viver na Terra, sob pena de 'morte', e  são usados como serviçais nas colônias humanas em outros planetas.

A caça por androides é só um pano de fundo para a fermentação dos velhos questionamentos humanos sobre autoconhecimento e papel da empatia como valor social, o que estabelecerá na cabeça dos personagens a real diferença entre humanos e máquinas.

Além disso, há a forma como o conceito de vida humana, animal e vegetal surge praticamente como foco das preocupações das personagens.

O amargor da vida é suavizado pelo já citado Mercerismo, uma religião narcotizante, caracterizada pelo escapismo psicológico protagonizado pela misteriosa 'caixa da empatia', um instrumento de fuga, a forma como os humanos se 'comunicam com o divino', uma surpreendente profecia sobre os modernos smartphones (lembrando que o livro foi escrito em 1968).

Outro ponto interessantíssimo do livro, marca registrada do autor: a dúvida paira no ar a todo instante, remetendo a perguntas como 'esse capítulo fala mesmo de algo real ou temos aqui apenas uma alucinação?', 'esse personagem é robô ou humano?'.

O filme de Riddley Scott, cujo roteiro é baseado na obra, é diferente do livro em vários aspectos: por exemplo, no livro, a androide Rachel Rosen não tem aura de androide do 'bem' e a psicologia de Rick Deckard é abordada com profundidade surpreendente.

Excelente livro para quem é fã de ficção científica, mas também para todos aqueles que questionam o peso dos valores humanos, o reinado do homem sobre a natureza e a definição do que é 'vida'.

Li a versão em inglês, editada pela Del Rey/Ballantine Books (vide a figura) e não tenho como dizer por enquanto sobre a qualidade das traduções para o português.

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